Fascínio da violência

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No Estadão de hoje:
 

O cineasta (Carlos Reichenbach) não suporta (…) filmes como Violência Gratuita, do austríaco Michael Haneke, cuja sessão nem esperou terminar, abandonando a sala aos berros de “fascista”. “Esse é o tipo de filme que transforma o espectador em cúmplice e faz o elogio descarado da violência.”

A discussão, que vai tomar a mídia ainda por algumas semanas, é sobre o suposto caráter fascista de Tropa de Elite, a vedete deste ano do cinema brasileiro.
 

Reichenbach é um queridíssimo da crítica brasileira. É um verdadeiro autor de cinema, vindo da pornochanchada, quando era ainda mais difícil ser autor. É de esquerda. E é um cinéfilo, vive organizando mostras. Mas a sua crítica contra Violência Gratuita e contra Michael Haneke troca os pés pelas mãos.
 

Em primeiro lugar, Haneke é o cineasta mais instigante do mundo atual. Esqueça Lars Von Trier, o marqueteiro. Ninguém enxerga e entende a atualidade como Haneke. E sua obra é precisamente o contrário do fascismo. Ele se preocupa enormemente em dar voz e direito às minorias. Exemplo é o recente Cachê, que teve algum sucesso no circuito alternativo brasileiro. Mas a melhor obra do austríaco se chama Código Desconhecido e já foi lançada em vídeo no Brasil. É uma mostra perfeita de que, em tempos de globalização, com a linguagem humana praticamente homogeneizada, com a difusão dos costumes prevista por Marshall McLuhan, ainda assim uns têm tudo e outros ficam à margem. Código… é um dos grandes filmes da década, como As Horas e Heróica.
 

Bom, poder-se-ia dizer que Violência Gratuita, que é um dos primeiros filmes de Haneke e lhe rendeu notoriedade mundial, foi feito sob a confusão ideológica de um neófito, o que justificaria a pecha de fascista. O problema é justamente que Reichenbach não o viu até o fim. Cometeu o famoso erro-Paulo-Francis, o do “não vi e não gostei”. Haneke está, com o filme, criticando a própria platéia que assiste à violência com prazer fetichista. Existe ali uma cena de grande polêmica. A mulher torturada toma uma espingarda e atira na cabeça de um dos torturadores, mas outro deles pega um controle remoto e dá rewind na cena, desfazendo, por meio de certo realismo fantástico, a morte do colega, único prazer até então permitido à audiência agoniada com tanto suplício imposto aos protagonistas. Houve quem tenha ficado indignado. Isso não se faz. Mas Haneke fez com um propósito muito firme. Se você gosta de violência, tem de saber o que é que está estimulando. Poucos entenderam. Reichenbach, parece, não.
 

Ele podia pensar com mais firmeza. Há alguns anos, o cineasta brasileiro era curador da chamada sessão maldita no Cinesesc, sempre exibindo cultuados filmes de horror (dos quais este blogueiro também é um entusiasta) que tenham sido produzidos de maneira marginal. Ocorre que um dos primeiros filmes da sessão foi o italiano Canibal Holocausto, esse sim um filme verdadeiramente fascista. Seu intuito não era dar sustos, mas chocar com as cenas de canibalismo. Ocorre que, passados mais de 25 anos de sua estréia, Canibal Holocausto choca por outro motivo: três animais – um preá, uma tartaruga e um porco – são sadicamente mortos perante as câmeras. O canibalismo foi forjado pelo diretor Ruggero Deodato, mas a morte cruel e a estripação dos animais eram reais. Nada mais fascista do que investir no fascínio pela violência real deste filme, e foi o que Reichenbach fez. Devia pedir desculpas públicas a Haneke.
 

PS. O blogueiro não viu Tropa de Elite e por isso não vai comentá-lo, por ora. Não foi pudor contra a pirataria. Estou doido para ver os dados de audiência dos primeiros dias da exibição. Veremos o quanto a pirataria de fato terá prejudicado – ou quiçá ajudado – na divulgação.

Uma resposta para 'Fascínio da violência'

  1. Funny Games U.S. « Diz:

    […] Foi o que aconteceu comigo três anos após de ter visto a versão austríaca e é provavelmente o que aconteceu com quem viu pela primeira vez agora a versão americana. Mesmo que não tenha mais o efeito surpresa do original - lançado há mais de dez anos - Funny Games U.S. parece provocar ainda a mesma reação de amor e ódio em quem assiste. Por isso, se sua namorada virar a cara e disser que o filme é uma merda ou alguém se levantar no cinema, gritar “Fascista!” e após isso abandonar a sala, não se surpreenda. Quando um filme é fácil de odiar, o problema é com eles, Haneke explica. […]

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