
Um forte sintoma da decadência editorial da grande mídia é a qualidade dos novos articulistas que frequentam Folha, Estadão e quetais. Uma das revelações da Folha é o escritor português João Pereira Coutinho, que se presta ao papel de polemista que em outros veículos, noves fora, é cumprido por Diogo Mainardi e Demétrio Magnolli. Há articulistas que são tucanos assumidos, outros – poucos, na grande imprensa – petistas ou lulistas escamoteados.
E há os radicais, que se dizem apenas independentes, como o Coutinho. Cada artigo dele traz um infindável desfile de bobagens pretensamente eruditas, mas sempre consultando as fontes erradas. É a velha história da ciência a serviço da ideologia, uma excrescência que se diz iluminista, mas no fundo é precisamente o contrário.
O artigo desta terça, por exemplo, é sobre a televisão. Coutinho reza que os benefícios do conteúdo da TV são maiores do que os seus malefícios. E evoca um certo Charles Kenny, de quem eu e, diga-se de passagem, o próprio articulista nunca tínhamos ouvido falar. Aparentemente, a pesquisa do senhor Kenny a que Coutinho se refere é do tipo positivista, funcionalista: tem muitos números, baseia-se na lógica cartesiana e procura não mudar o sistema, mas corrigir os pequenos vícios que há dentro dele, enquanto o próprio sistema continua religiosamente igual.
Sabe o leitor quanta gente já desenvolveu estudos de recepção sobre a TV? Quem se aventurou pelo pequeno inferno que é uma pós-graduação em Comunicação Social faz, no mínimo, uma vaga idéia. Não é o caso de Coutinho. Ele desenvolve um raciocínio simples, para não dizer simplista. Às idéias dos estudiosos que enxergam a TV de maneira crítica, aqueles que Umberto Eco chamaria de apocalípticos, chama-as de ignaras e inúteis. Acha que as “más influências” das novelas (aspas dele) são, na realidade, boas influências. A nova intelligentsia mundial, ou pelo menos parte dela, apoia a teledramaturgia da Globo.
Até vinte anos atrás, a intelectualidade entre os comunicólogos rezava pela cartilha de Frankfurt, gente como Adorno, Horkheimer e Marcuse, que cunharam o termo Indústria Cultural, jamais contestado até hoje, e desenvolveram um pensamento segundo o qual a tendência da chamada cultura pop – que não é a erudita nem a popular, mas sim aquela feita pela indústria para o consumo das massas – é a de nivelar por baixo a cultura de seu consumidor.
Nos últimos vinte anos, contudo, é Frankfurt quem sofre com outra tendência, a de relativizar todas as leis totalizantes que vieram com a Modernidade. Aconteceu com Freud, com Marx, com Darwin, e aconteceu com Adorno. Para o novo pensamento, a Indústria Cultural, sim, existe, mas ela não é necessariamente ruim. Essa tendência surgiu entre a direita, mas também entre pesquisadores marxistas, como o jamaicano Stuart Hall e o brasileiro Carlos Eduardo Lins da Silva.
Em si, a relativização não é perversa. É possível que, no afã de abraçar o mundo, as citadas leis totalizantes tenham produzido muita miséria física, econômica, intelectual. Não raro, um psicólogo que pregue as leis de Freud com muito rigor ou, pior, um sociólogo que siga a cartilha de Marx ao pé da letra nunca conseguem contribuir para a expansão do conhecimento humano. Tratam a teoria como bíblia, e o resultado do pensamento científico – que para ser válido tem de ser falsificável, no dizer de Popper – é um dogma. Dogmas não são uma questão de ciência, mas de fé.
O problema é que a ânsia de desdizer essas teorias que, se são totalizantes, nem por isso são fundamentalmente erradas, pode ser por si só dogmática. É um jogo perigoso. O pensador livre vive numa corda bamba e tem de cuidar para não escorregar nos seus próprios radicalismos. O fato de Adorno ter encarado os receptores da comunicação como uma raça disforme e sem vontade própria não faz com que os efeitos das obras exibidas pela TV sejam menos perversos.
Lins da Silva, por exemplo, concluiu, em Muito Além do Jardim Botânico, que a exposição do Jornal Nacional a comunidades pobres não evitava que elas adquirissem senso crítico com relação ao que viam. É verdade, mas a questão, como escreveria mais tarde Armand Mattelart, é: quem é que domina o processo com o qual essas comunidades adquirem senso crítico? Em outras palavras, no momento em que percebessem que o Jornal Nacional – aquele que trata o público como Hommer Simpson – não é minimamente confiável, não seria de se esperar que essas comunidades fossem procurar notícias de outras fontes? Esta é a pergunta que a anti-totalização da pesquisa de Lins da Silva não respondeu – e diga-se, para ser justo, que nem era esse o seu objeto.
Mas é difícil que João Pereira Coutinho conheça o trabalho de Lins da Silva pregresso à posição de ombudsman da Folha que ele ocupa hoje. Não sei também se Coutinho conhece Hall, ou Raymond Williams, ou Jesús Martin-Barbero, ou John B. Thompson, ou Bernard Berelson, ou qualquer um dos inúmeros pesquisadores que já produziram pesquisas confiáveis sobre a recepção. Coutinho não é um comunicólogo, mas tem uma carta livre da Folha de S. Paulo para falar sobre o que bem entende como se fosse um conhecedor. É o que o escritor Furio Lonza chamou de caso de polícia, num texto que uma vez publicou na Revista Superinteressante, a respeito das pessoas que escrevem sobre o que não conhecem.
Na abertura de seu ótimo As Razões do Iluminismo, Sérgio Paulo Rouanet alerta para o perigo desta relativização. Não é Bach que ameaça a literatura de cordel, é a novela das oito, diz o filósofo. Coutinho acha que as “boas influências” (agora as aspas são minhas) da televisão tendem a alçar o povo a um estágio superior, aquele de se imitarem as elites a ponto de ficar parecido com elas.
Não é o único que relativiza a perversidade, tendendo a perdoá-la. No mestrado, cometi o equívoco, um dos maiores da minha vida, de procurar uma orientadora que era, descobri mais tarde, uma defensora entusiasta das telenovelas. Seus orientandos, menos eu, também. Não é preciso dizer que o saco encheu e o meu projeto fez água. Conheço muita gente que adora novelas, mas entrar em campo para competir sozinho contra o filistinismo (expressão do Coutinho) de um time inteiro pretensamente intelectualizado é covardia.
Em todo caso, o que se pode constatar é que, de repente, Sílvio Abreu, Benedito Rui Barbosa e (arreda capeta, pé-de-pato, mangalô três vezes) Glória Perez têm um status maior entre certa intelectualidade do que Machado, Graciliano e Guimarães. Antes de dever-se à qualidade artística do trabalho daqueles autores, este status deve-se ao poder de influência deles sobre a cultura brasileira dos dias de hoje, aquela que é representada pelo cidadão comum, que nunca dançou o bumba-meu-boi. Pegue uma varredora, uma recepcionista, uma secretária ou uma executiva e veja se ela é mais influenciada pelo Walter Negrão ou pelo Manuel Bandeira. Depois disso, chore. A intelectualidade, assim, dá lustro de respeito à telenovela.
Mas pior mesmo é a auto-indulgência com que Coutinho defende a televisão: antes de falar de suas maravilhas, ele diz que, não sendo um filisteu, não assiste à TV! Não dá para saber se está simplesmente mentindo ou reconhecendo que está discursando sobre um objeto de que não entende. Nos dois casos, incorreu em desonestidade intelectual. Essa a miséria da nova mídia brasileira.
E quanto a Bach? Bah!
PS. Mas é bom lembrar que há críticos de ontem e hoje – entre eles Eugenio Bucci e Telmo Martino – que seguem fazendo um bom trabalho.
PPS. Na foto, o elenco da Globo se prepara para enfiar um pouco de cultura na cabeça dessa gente ignara.