É campeão, é supercampeão e tal
2/07/091. Primeiro, o que realmente interessa:

É campeão!!!

2. É impossível ser brasileiro e não falar sobre futebol. Hoje, aqui neste blogue, absolvo (embora só até certo ponto) gente como Hugo Georgetti, Nando Reis e Daniel Piza. Eles têm ou tiveram colunas sobre futebol, sendo que um é cineasta (e bom), outro é músico (dizem, mas ainda não acredito), o terceiro eu não sei, ninguém sabe. O que eles entendem de futebol? Bulhufas! Pois bem: nem eu. Mas vou falar de futebol mesmo assim. Vou fingir que entendo, como eles, escorado na minha tradição de brasileiro. E de corintiano.

3. Lembra da tal guerra cirúrgica? Era assim: os EUA usavam sua tecnologia incrivelmente avançada, matavam só os inimigos que precisavam matar, não tinham nenhuma baixa e atingiam o seu objetivo. Era o confronto com a precisão e a delicadeza de um cirurgião. Claro que era uma peça de ficção. Morreram civis no Iraque, no Afeganistão, nos quintos dos infernos; morreram (muitos) americanos. Mas a guerra cirúrgica existiu no futebol brasileiro em 2009. Ou quase. Foi o Corinthians na Copa do Brasil. Fez o básico, e sempre se mostrou capaz disso, ainda que, a cada passo que desse, a cada vez que avançasse, mesmo fazer o básico o básico fosse cada vez mais difícil.
Na primeira e na segunda fase, precisava ganhar de 2 a 0 para evitar o jogo de volta. Ganhou os dois jogos de 2 a 0. Quando perdeu de 3 a 2 do Atlético Paranaense, nas oitavas de final, ganhou dele por 2 a 0 no jogo de volta. Nas semifinais empatou duas vezes e só se classificou graças ao gol marcado fora de casa. Com o Fluminense, assim como contra o Inter, não conseguiu segurar vitórias de 2 a 0 fora de casa, mas o empate bastou. Era a verdadeira guerra cirúrgica (com os perdões por usar termos bélicos: futebol é esporte, não é guerra, não é luta, não é violência). Como o Balu, no desenho Mogli, o Corinthians nunca fez mais do que o estritamente necessário.
Havia baixas, claro: elas eram os gols do adversário. Que o Timão sempre cuidou de neutralizar.
4. Dizem que isso só foi possível graças a Ronaldo. Claro que sim. E graças a Felipe, a William e Chicão, a André Santos, a Christian e Elias. Cada um tinha a sua função. A de Ronaldo era brilhar em gols que pareciam encontrados casualmente. A de William e Chicão era dar chutão. A do Elias e do Christian era a de ser o cérebro do time. A do Douglas eu ainda não sei, mas tenho certeza que estava lá, em algum lugar.
5. Todo mundo diz que seu time é diferenciado. Talvez seja verdade que, se há mais gente em São Paulo que diz que o Corinthians é diferenciado, isso acontece porque há mais torcedores do Corinthians do que de outros times. Mas, bah, vou dizer assim mesmo: o Corinthians é diferenciado!
Eis alguns porquês:
- é um time que fez um planejamento para o ano de centenário e está cumprindo: classificou-se para a Libertadores. Normalmente, times que completam cem anos acabam, depois da campanha, lutando para não cair. E fracassam.
- Tem o mesmo técnico há um ano e meio. Isso, no Brasil, equivale a viver 90 anos e ainda dar no couro. Claro que isso é raro mesmo para o Corinthians, mas está estritamente de acordo com seu planejamento.
- Tem um jogador que sabe dar entrevistas: William. É uma raridade, só vista antes com Sócrates, Ricardinho e Bobô. Digo o Bobô do Bahia, não aquele centroavante horrível que o próprio Corinthians teve uns anos atrás.
- É o time da democracia, o único que lutou verdadeiramente, à sua maneira (ou seja, por meio do marketing, que podia explorar devido à superexposição), contra a ditadura. A Gaviões foi a única torcida que ostentou a faixa com os dizeres “Pela abertura ampla, real e irrestrita”, quando o governo militar ainda ensinava algum recrudescimento (nota: essa é para quem acreditou que eu não falaria de ditadura. Mas por enquanto chega).
- É o time das incríveis decadências e das incríveis superações. Ficou 23 anos sem um título. Teria virado um América carioca da vida, mas voltou ao topo, conquistou quatro brasileiros, três Copas do Brasil, e um mundial. Escrevo de novo: conquistou um mundial. Escrevo outra vez: um mundial. Não gostou, vai reclamar com a Fifa, ô, Zé! Pois bem: no ano retrasado caiu, no ano passado subiu, neste ano ganhou tudo o que disputou até agora e está na Libertadores. Corinthians é o time da virada. Corinthians é o time do amor, ê ê ô!
- É o time de Neco, Servílio, Luizinho, Cláudio, Baltazar, Basílio, Wladimir, Sócrates, Biro-biro, Neto, Marcelinho Carioca. Você pode dizer: “ah, mas o meu é o time de Raí, Dario Pereira e Pedro Rocha”, ou: “e o que você diz do time de Pelé, Dorval, Mengálvio, Pepe, Pagão e Jenessequá?”. Digo: pó, parabéns! Mas o meu é mais da hora! Simplesmente porque é o meu! Ou você também não é torcedor do seu time?
- Só para constar: eu podia ter incluído na lista acima De Leon, Rivelino, Paulo Nunes e Ronaldo. São grandes jogadores; alguns brilharam no Corinthians, outro nem tanto, mas todos também brilharam em outros times, e portanto não têm aquele it, certo? Certo.
- E por aí vai.

6. Agora, ao que interessa: a vingança! O Internacional era o time que eu queria pegar numa final e estraçalhar, humilhar, deixar na sarjeta, na rua da amargura chorando as mágoas ao som de Nélson Gonçalves*. Por quê? Porque os torcedores colorados guardam de mim mágoas que eu não guardava deles. Não roubei aquele pênalti do Fábio Costa em cima do Tinga em 2005. Não sou amigo do Luiz Sveiter. Não faço DVDs inventando trapaças da arbitragem para pressionar a CBF na final. Não fiz uma festa vergonhosa comemorando o rebaixamento do time adversário de outro estado no ano retrasado, nem em ano nenhum, como o Inter fez com a gente. Aê, amigo colorado: dançou, se deu mal, se ferrou, se danou, se etc., hein!

7. Tem também o seguinte: o Inter estava com o rei na barriga. Tem o Nilmar, que é o melhor atacante da atualidade jogando no Brasil. Tem o Tyson, que é o segundo melhor. Tem o D’Alessandro, que joga muito. É grande candidato a campeão brasileiro. O Tite é técnico pra caramba, palavra de corintiano, já que o Corinthians já foi dirigido pelo Tite. Tem uma torcida bacana, que fez a festa. O Inter tem, no papel, o melhor time da atualidade. Nem quero ver como vai ser pegar eles na Libertadores. Mas, desta vez, deu nóis. Agora o Juca Kfouri aposta que o Tite cai e o Murici assume o Inter. O decoro me impede de dizer o que acho do Juca Kfouri, mas é bem possível desta vez que esteja certo. Se estiver, lamento. Tite é bom, cara, Tite é bom! Se um dia o Mano sair – e for para o Barcelona, ou o Chelsea, ou o Milan –, espero que o Tite volte.

8. Deixa eu relembrar uma história que não vi ninguém relembrar. O ano era 2003. O Corinthians estava na Libertadores e tinha grandes chances de avançar. Foi para as oitavas-de-final e pegou o River Plate, da Argentina. Nosso meia era o Jorge Wagner (não faça como o Kléber Machado, não confunda com o Jorge Henrique). Mas nosso principal jogador era o lateral esquerdo. O Kléber. Pois bem: o principal jogador do River era o D’Alessandro. Já está começando a pescar a história, certo?
No primeiro jogo, na Argentina, o D’Alessandro deitou e rolou em cima do Corinthians. Como disse lá em cima, ele joga muito. Não apenas com a bola nos pés: é catimbeiro de primeira, legítimo representante da escola hermanita. E, se você acha que isso não tem nada a ver com o futebol brasileiro, é porque nunca jogou na várzea, onde o povo catimba que dá dó. Pois bem, no primeiro jogo ele fez o Kléber de gato e sapato e o River ganhou por 2 a 1. No segundo o Corinthians resolveu ir à forra. O Kléber jogou muito e logo estávamos vencendo por 1 a 0, placar que dava a classificação para o Corinthians. Pois o D’Alessandro conseguiu: a) cavar a expulsão do Kléber, que caiu na catimba dele; b) conduzir o time para a virada, fechando o placar em 2 a 1; e c) tirar a vaga do Timão.
É um jogo atravessado na minha garganta. Entre outros motivos, porque o Kléber foi tão inocentezinho, dando o pretexto para a expulsão, que abriu caminho para a vitória do River. E porque o D’Alessandro fez aquela catimba argentina que os brasileiros aprendemos a odiar. E não é que o Corinthians desta vez ganhou justamente do time do Kléber, que naquela vez foi expulso, depois abandonou o time e agora está no Inter?
E não é que, além de o Corinthians ter ido à forra desta vez, o D’Alessandro foi expulso?

9. Ah, sim: sobre a expulsão do D’Alessandro: você não caiu na farsa daquela briga que ele tentou arrumar, caiu? Porque calejados ex-jogadores profissionais, como o Júnior e o Caio (comentaristas da Globo) caíram. O que aconteceu de fato foi o seguinte: desta vez, o Inter, time gaúcho, tradicionalmente acostumado com as catimbas argentinas, perdeu a cabeça quando o Cristian, volante do Corinthians, se jogou no chão para fazer cera. Armaram um salseiro. Que terminou com o D’Alessandro expulso, porque ele, na fúria argentina, avançou primeiro contra os corintianos.
Tão logo recebeu o vermelho, D’Alessandro partiu para cima do William. Queria briga? É o que acharam os comentaristas da Globo. Mas não: ele queria apenas cavar a expulsão do William. Bastava que o capitão do Corinthians revidasse. E o William ficou apenas correndo de costas, rindo à solta, e não foi expulso. Foi um duelo de experiências: a do catimbeiro cavando a expulsão do adversário, a do capitão mostrando para todo mundo: “vejam, eu não estou fazendo nada”. É raro, mas, desta vez, o experiente brasileiro anti-catimba ganhou do argentino catimbeiro. O que não significa que o Corinthians não tenha feito das suas: tudo, afinal, começara com a cera, o ai-ai-ai de Cristian. Isso, claro, não é futebol. Só vai mudar no dia em que resolverem punir os ais-ais-ais.

10. Bom, bom, bom, salve o Corinthians e tal, o campeão dos campeões, viva o Mano Menezes, nosso melhor técnico em muitos anos, o Chicão às vezes me lembra o Gamarra, o Elias tem um quê de Biro-biro (e outro de Ezequiel), o André Santos agora vai embora, o Douglas pode dar lugar a um meia melhor (se bem que é difícil achar bons armadores hoje em dia), precisamos de mais atacantes ofensivos, o Jorge Henrique não é tão bom assim, Ronaldo fica marcado na história, mas é, lembremos, um homem de negócios. Nosso objetivo é Libertadores. Vencemos uma batalha, como em Monte Castelo, a guerra vem aí, no ano que vem. Até lá, bom Brasileirão para todos. Lembrando que já vencemos a segundona, o paulista, a Copa do Brasil e, não custa lembrar, de novo, a Taça São Paulo.
E parabéns pra nóis de novo! * Neste caso, São Paulo, Palmeiras e Santos não contam.









