É campeão, é supercampeão e tal

2/07/09

1. Primeiro, o que realmente interessa: 

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  É campeão!!! 

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2. É impossível ser brasileiro e não falar sobre futebol. Hoje, aqui neste blogue, absolvo (embora só até certo ponto) gente como Hugo Georgetti, Nando Reis e Daniel Piza. Eles têm ou tiveram colunas sobre futebol, sendo que um é cineasta (e bom), outro é músico (dizem, mas ainda não acredito), o terceiro eu não sei, ninguém sabe. O que eles entendem de futebol? Bulhufas! Pois bem: nem eu. Mas vou falar de futebol mesmo assim. Vou fingir que entendo, como eles, escorado na minha tradição de brasileiro. E de corintiano. 

  

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3. Lembra da tal guerra cirúrgica? Era assim: os EUA usavam sua tecnologia incrivelmente avançada, matavam só os inimigos que precisavam matar, não tinham nenhuma baixa e atingiam o seu objetivo. Era o confronto com a precisão e a delicadeza de um cirurgião. Claro que era uma peça de ficção. Morreram civis no Iraque, no Afeganistão, nos quintos dos infernos; morreram (muitos) americanos. Mas a guerra cirúrgica existiu no futebol brasileiro em 2009. Ou quase. Foi o Corinthians na Copa do Brasil. Fez o básico, e sempre se mostrou capaz disso, ainda que, a cada passo que desse, a cada vez que avançasse, mesmo fazer o básico o básico fosse cada vez mais difícil. 

Na primeira e na segunda fase, precisava ganhar de 2 a 0 para evitar o jogo de volta. Ganhou os dois jogos de 2 a 0. Quando perdeu de 3 a 2 do Atlético Paranaense, nas oitavas de final, ganhou dele por 2 a 0 no jogo de volta. Nas semifinais empatou duas vezes e só se classificou graças ao gol marcado fora de casa. Com o Fluminense, assim como contra o Inter, não conseguiu segurar vitórias de 2 a 0 fora de casa, mas o empate bastou. Era a verdadeira guerra cirúrgica (com os perdões por usar termos bélicos: futebol é esporte, não é guerra, não é luta, não é violência). Como o Balu, no desenho Mogli, o Corinthians nunca fez mais do que o estritamente necessário. 

Havia baixas, claro: elas eram os gols do adversário. Que o Timão sempre cuidou de neutralizar. 

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4. Dizem que isso só foi possível graças a Ronaldo. Claro que sim. E graças a Felipe, a William e Chicão, a André Santos, a Christian e Elias. Cada um tinha a sua função. A de Ronaldo era brilhar em gols que pareciam encontrados casualmente. A de William e Chicão era dar chutão. A do Elias e do Christian era a de ser o cérebro do time. A do Douglas eu ainda não sei, mas tenho certeza que estava lá, em algum lugar. 

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 5. Todo mundo diz que seu time é diferenciado. Talvez seja verdade que, se há mais gente em São Paulo que diz que o Corinthians é diferenciado, isso acontece porque há mais torcedores do Corinthians do que de outros times. Mas, bah, vou dizer assim mesmo: o Corinthians é diferenciado! 

Eis alguns porquês: 

  1. é um time que fez um planejamento para o ano de centenário e está cumprindo: classificou-se para a Libertadores. Normalmente, times que completam cem anos acabam, depois da campanha, lutando para não cair. E fracassam. 

  2. Tem o mesmo técnico há um ano e meio. Isso, no Brasil, equivale a viver 90 anos e ainda dar no couro. Claro que isso é raro mesmo para o Corinthians, mas está estritamente de acordo com seu planejamento. 

  3. Tem um jogador que sabe dar entrevistas: William. É uma raridade, só vista antes com Sócrates, Ricardinho e Bobô. Digo o Bobô do Bahia, não aquele centroavante horrível que o próprio Corinthians teve uns anos atrás. 

  4. É o time da democracia, o único que lutou verdadeiramente, à sua maneira (ou seja, por meio do marketing, que podia explorar devido à superexposição), contra a ditadura. A Gaviões foi a única torcida que ostentou a faixa com os dizeres “Pela abertura ampla, real e irrestrita”, quando o governo militar ainda ensinava algum recrudescimento (nota: essa é para quem acreditou que eu não falaria de ditadura. Mas por enquanto chega). 

  5. É o time das incríveis decadências e das incríveis superações. Ficou 23 anos sem um título. Teria virado um América carioca da vida, mas voltou ao topo, conquistou quatro brasileiros, três Copas do Brasil, e um mundial. Escrevo de novo: conquistou um mundial. Escrevo outra vez: um mundial. Não gostou, vai reclamar com a Fifa, ô, Zé! Pois bem: no ano retrasado caiu, no ano passado subiu, neste ano ganhou tudo o que disputou até agora e está na Libertadores. Corinthians é o time da virada. Corinthians é o time do amor, ê ê ô! 

  6. É o time de Neco, Servílio, Luizinho, Cláudio, Baltazar, Basílio, Wladimir, Sócrates, Biro-biro, Neto, Marcelinho Carioca. Você pode dizer: “ah, mas o meu é o time de Raí, Dario Pereira e Pedro Rocha”, ou: “e o que você diz do time de Pelé, Dorval, Mengálvio, Pepe, Pagão e Jenessequá?”. Digo: pó, parabéns! Mas o meu é mais da hora! Simplesmente porque é o meu! Ou você também não é torcedor do seu time? 

  7. Só para constar: eu podia ter incluído na lista acima De Leon, Rivelino, Paulo Nunes e Ronaldo. São grandes jogadores; alguns brilharam no Corinthians, outro nem tanto, mas todos também brilharam em outros times, e portanto não têm aquele it, certo? Certo. 

  8. E por aí vai. 

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6. Agora, ao que interessa: a vingança! O Internacional era o time que eu queria pegar numa final e estraçalhar, humilhar, deixar na sarjeta, na rua da amargura chorando as mágoas ao som de Nélson Gonçalves*. Por quê? Porque os torcedores colorados guardam de mim mágoas que eu não guardava deles. Não roubei aquele pênalti do Fábio Costa em cima do Tinga em 2005. Não sou amigo do Luiz Sveiter. Não faço DVDs inventando trapaças da arbitragem para pressionar a CBF na final. Não fiz uma festa vergonhosa comemorando o rebaixamento do time adversário de outro estado no ano retrasado, nem em ano nenhum, como o Inter fez com a gente.  Aê, amigo colorado: dançou, se deu mal, se ferrou, se danou, se etc., hein! 

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7. Tem também o seguinte: o Inter estava com o rei na barriga. Tem o Nilmar, que é o melhor atacante da atualidade jogando no Brasil. Tem o Tyson, que é o segundo melhor. Tem o D’Alessandro, que joga muito. É grande candidato a campeão brasileiro. O Tite é técnico pra caramba, palavra de corintiano, já que o Corinthians já foi dirigido pelo Tite. Tem uma torcida bacana, que fez a festa. O Inter tem, no papel, o melhor time da atualidade. Nem quero ver como vai ser pegar eles na Libertadores. Mas, desta vez, deu nóis. Agora o Juca Kfouri aposta que o Tite cai e o Murici assume o Inter. O decoro me impede de dizer o que acho do Juca Kfouri, mas é bem possível desta vez que esteja certo. Se estiver, lamento. Tite é bom, cara, Tite é bom! Se um dia o Mano sair – e for para o Barcelona, ou o Chelsea, ou o Milan –, espero que o Tite volte. 

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8. Deixa eu relembrar uma história que não vi ninguém relembrar. O ano era 2003. O Corinthians estava na Libertadores e tinha grandes chances de avançar. Foi para as oitavas-de-final e pegou o River Plate, da Argentina. Nosso meia era o Jorge Wagner (não faça como o Kléber Machado, não confunda com o Jorge Henrique). Mas nosso principal jogador era o lateral esquerdo. O Kléber. Pois bem: o principal jogador do River era o D’Alessandro. Já está começando a pescar a história, certo

No primeiro jogo, na Argentina, o D’Alessandro deitou e rolou em cima do Corinthians. Como disse lá em cima, ele joga muito. Não apenas com a bola nos pés: é catimbeiro de primeira, legítimo representante da escola hermanita. E, se você acha que isso não tem nada a ver com o futebol brasileiro, é porque nunca jogou na várzea, onde o povo catimba que dá dó. Pois bem, no primeiro jogo ele fez o Kléber de gato e sapato e o River ganhou por 2 a 1. No segundo o Corinthians resolveu ir à forra. O Kléber jogou muito e logo estávamos vencendo por 1 a 0, placar que dava a classificação para o Corinthians. Pois o D’Alessandro conseguiu: a) cavar a expulsão do Kléber, que caiu na catimba dele; b) conduzir o time para a virada, fechando o placar em 2 a 1; e c) tirar a vaga do Timão. 

É um jogo atravessado na minha garganta. Entre outros motivos, porque o Kléber foi tão inocentezinho, dando o pretexto para a expulsão, que abriu caminho para a vitória do River. E porque o D’Alessandro fez aquela catimba argentina que os brasileiros aprendemos a odiar. E não é que o Corinthians desta vez ganhou justamente do time do Kléber, que naquela vez foi expulso, depois abandonou o time e agora está no Inter? 

E não é que, além de o Corinthians ter ido à forra desta vez, o D’Alessandro foi expulso? 

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9. Ah, sim: sobre a expulsão do D’Alessandro: você não caiu na farsa daquela briga que ele tentou arrumar, caiu? Porque calejados ex-jogadores profissionais, como o Júnior e o Caio (comentaristas da Globo) caíram. O que aconteceu de fato foi o seguinte: desta vez, o Inter, time gaúcho, tradicionalmente acostumado com as catimbas argentinas, perdeu a cabeça quando o Cristian, volante do Corinthians, se jogou no chão para fazer cera. Armaram um salseiro. Que terminou com o D’Alessandro expulso, porque ele, na fúria argentina, avançou primeiro contra os corintianos. 

Tão logo recebeu o vermelho, D’Alessandro partiu para cima do William. Queria briga? É o que acharam os comentaristas da Globo. Mas não: ele queria apenas cavar a expulsão do William. Bastava que o capitão do Corinthians revidasse. E o William ficou apenas correndo de costas, rindo à solta, e não foi expulso.  Foi um duelo de experiências: a do catimbeiro cavando a expulsão do adversário, a do capitão mostrando para todo mundo: “vejam, eu não estou fazendo nada”. É raro, mas, desta vez, o experiente brasileiro anti-catimba ganhou do argentino catimbeiro. O que não significa que o Corinthians não tenha feito das suas: tudo, afinal, começara com a cera, o ai-ai-ai de Cristian. Isso, claro, não é futebol. Só vai mudar no dia em que resolverem punir os ais-ais-ais. 

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10. Bom, bom, bom, salve o Corinthians e tal, o campeão dos campeões, viva o Mano Menezes, nosso melhor técnico em muitos anos, o Chicão às vezes me lembra o Gamarra, o Elias tem um quê de Biro-biro (e outro de Ezequiel), o André Santos agora vai embora, o Douglas pode dar lugar a um meia melhor (se bem que é difícil achar bons armadores hoje em dia), precisamos de mais atacantes ofensivos, o Jorge Henrique não é tão bom assim, Ronaldo fica marcado na história, mas é, lembremos, um homem de negócios. Nosso objetivo é Libertadores. Vencemos uma batalha, como em Monte Castelo, a guerra vem aí, no ano que vem. Até lá, bom Brasileirão para todos. Lembrando que já vencemos a segundona, o paulista, a Copa do Brasil e, não custa lembrar, de novo, a Taça São Paulo. 

E parabéns pra nóis de novo!    * Neste caso, São Paulo, Palmeiras e Santos não contam.

Você seria Michael Jackson?

1/07/09
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“Porque gado a gente marca

tange ferro, engorda e mata, 

mas com gente é diferente.”

Geraldo Vandré

Fico pensando o seguinte: se Michael Jackson chegasse ao céu e alguém, tipo São Pedro, oferecesse a ele uma escolha: ele pode ficar por lá até o apocalipse ou ele poderia viver de novo a mesmíssima vida que viveu. Tudo, tintim por tintim. Sendo criança e cantando “ABC / easy as one, two, three”; fazendo o maior sucesso do mundo com Thriller; virando milionário e sendo uma das pessoas mais conhecidas do mundo. Mas também sendo explorado (alguns dizem ‘abusado’) pelo pai, ficando completamente doente da cabeça, tendo a paranóia de viver numa bolha, se desfigurando até virar um dos maiores motivos de chacota da história do pop. Você aceitaria o desafio? Será que Michael Jackson voltaria?

Na heterogeneidade do mundo, haverá certamente os malucos que morreriam para ter vivido na pele da estrela pop – parte deles ainda tentam ser Michael Jackson, um dos homens mais imitados do mundo, como Elvis Presley e Raul Seixas. É que a vida do astro costuma ser entendida como o paroxismo da doença na cabeça de uma pessoa. Enquanto isso, poucos pensam no que é mais grave: que a trajetória do cantor é prova cabal de como um mundo pode ficar doente.

Porque a vitiligo que nunca houve, a suposta pedofilia, a hipocondria paranóica são uma face da moeda, a menor delas. Do outro lado, há o culto à personalidade, que, em lugar de ser criticado e combatido, é incentivado e explorado pela sociedade. Se você vai a um show e sai de lá embevecido com a música, tudo bem: é essa a função da música. Mas, se você ganha um concurso para ficar três minutos com o Fábio Júnior, ou com o Ronaldo, e, até lá, passa três noites de febre – então, amigo ou amiga, você está com sérios problemas.

Acontece que o culto à personalidade é a linha de frente dos mais sofisticados mercados mundiais. Basta dar uma olhada na programação da Globo, uma das empresas mais poderosas do mundo: o Fantástico faz roda de opiniões com a repórter Milena Ceribelli, o Faustão pergunta o que o Marcelo Anthony real tem a ver com o seu personagem fictício na novela das oito, o Luciano Huck fala de sua antiga relação com a Ivete Sangalo, o Serginho Groissman quer entrevistar o Augusto Boal, mas tem de dividir o palco com o Murilo Benício, o músico Andreas Kisser é chamado pelo Jornal da Globo para comentar o último jogo do Palmeiras, Dudu Nobre toca num bar cenográfico da novela das sete – e depois o Vídeo Show faz um resumo de tudo isso.

Claro que nada passa de business as usual: são atores do elenco da Globo, cantores do cast da Globo, entrevistadores sob contrato com a Globo. Mas o que a TV explora, hoje, não é conteúdo; a Globo não se interessa mais, se é que já se interessou, pela qualidade artística de um filme ou por uma inovação dramática na novela: o que ela vende são personalidades.

Michael Jackson foi uma das vítimas deste mercado, uma das poucas que estão do lado de lá da corda, e talvez tenha se vitimado simplesmente porque esse tipo de relação entre as pessoas não é normal. Outros houve que, de uma maneira ou de outra, não concatenaram com essa história de sucesso. Do lado de cá da corda, contudo, há mais vítimas – nós, que aceitando os produtos que a indústria cultural nos vende, abrimos mão de ter algo como um gosto artístico. Fora as milhões de vezes em que abrimos mão de nosso suado dinheirinho para comprar os produtos – próprios (como um disco do Michael Jackson) ou terceiros (como a coca-cola que um cantor sugere que tomemos) – vendidos por estas personalidades.

Fazer parte deste esquema e transformar-se num homem muito, muito doente. O que você acha disso?

A vergonhosa idéia que vem de fora

1/07/09

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Uma espada paira sobre a cabeça de todos os cidadãos latino-americanos. O golpe que depôs o presidente hondurenho, Manuel Zelaya, é uma ameaça concreta. Ele ressuscita um fantasma que muitos acreditavam exorcizado, talvez há 25 anos, seguramente há 15 anos: o da volta de um Estado de exceção.

 

Neste exato momento há um número incalculável de pilantras brasileiríssimos a quem o golpe em Honduras está sugerindo uma ou duas idéias. Tivemos uma ditadura dividida em cinco governos (fora as juntas), e, pensando bem, nada impede que voltemos a uma ditadura. Talvez uma sob outras bases: saem os militares, entram civis sob qualquer pretexto – por exemplo: a segurança pública.

Já que o povo se sente inseguro, instaura-se o toque de recolher, como está acontecendo em Honduras; e valida-se a tortura como “método de investigação”, como já aconteceu em toda a trajetória da República brasileira, e, de novo, como deve estar acontecendo este momento em Honduras. Esta hipótese, a de uma ditadura civil baseada no argumento anti-violência urbana, não foi levantada por mim, mas pelo Chico Buarque, que conheceu na pele o material de que é feito um governo autoritário.

Vale, sim, o argumento de que não só as instituições democráticas brasileiras estão mais sólidas do que há 25 anos, e provavelmente mais consistentes do que as instituições democráticas de toda a história hondurenha. Ademais, é bastante improvável que alguém tente depor pela força um presidente que goza de mais do que 70% de popularidade, como o nosso.

Sim, mas também é verdade que a nossas elites basicamente não preocupa a opinião da maioria. Elas são as donas históricas do queijo, que nunca dividem, nunca vão dividir, e não consideram necessário que os que moram no queijo escolham e mantenham no poder aquele que vai para governá-los. Foi assim com João Goulart.

E os ensaios para um golpe no Brasil já começaram há tempos. Este texto, por exemplo, é de 2004. Este é de 2007. Este outro, já famoso, está em vários blogs. Nesta semana, enquanto Zelaya era exilado em Manágua, a revista Veja – sim, ela mesma, a do Diogo Mainardi, do Lauro Jardim e do Reinaldo Azevedo, a revista que é o carro-chefe da editora gerida pelo grupo fascista que apoiou o regime do apartheid na África do Sul –, pois bem: a Veja está, por meio de um colunista, manifestando apoio ao governo golpista.

Por outro lado, as manifestações antiditatoriais estão muito fracas. O governo brasileiro criticou o golpe, o argentino também, o chileno e tal. Os conspiradores hondurenhos dão de ombros, pois quem importa – isto é: os EUA – está se manifestando timidamente. É claro que a situação interessa aos americanos: o golpe depõe um líder bolivariano, da linha de Evo Morales e Hugo Chávez, o inimigo a ser temido pelos EUA hoje na América Latina.

Mesmo assim, era de se esperar que Barack Obama, em sua tradição liberal, defendesse a democracia com maior ênfase do que está fazendo. Chávez é um líder ruim para a tradição democrática, é verdade, e o modo de fazer política dos bolivarianos é para lá de questionável, mas o que está sendo golpeado, em primeiro plano, é a democracia. Um país que impõe um embargo a Cuba sob pretexto de que a ilha é antidemocrática está sendo incoerente com relação ao novo governo centro-americano.

É importante que a situação se reverta, e logo.

Descobri quem é o diabo

29/06/09
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Uma das últimas encíclicas de João Paulo II foi sobre o diabo. O papa morreu e as pessoas pediram que fosse canonizado, esquecendo-se de que, para virar santo, uma pessoa tem que fazer alguns milagrezinhos comprovados, pelo menos segundo as normas de comprovação impostas pela igreja católica. Mas, se acreditaram que era o caso de santificar o indivíduo, é porque achavam-no um cara legal. E veja só: mesmo um cara legal como ele acorda um dia pensando no diabo.

Hoje eu – sobre quem todos, sem exceção, dizem que não sou nenhum santo – acordei pensando no diabo. Tenho algumas teorias a respeito do dito-cujo. Uma delas contradiz radicalmente a bula papal, que considerava que o coisa-ruim existe como uma idéia. Não acho. O cramunhão é uma pessoa de carne e osso. E é brasileiro.

Seu nome é Roberto Justus.

Sim, eu sei que você, meu caro, deve ter alguns candidatos a diabo mais bem colocados no ranking. Todo mundo tem o seu diabrete de plantão, e nosso mundo é mesmo pródigo em asmodeus de todas as estirpes. Os líderes em popularidade foram, provavelmente, Antônio Carlos Magalhães e Paulo Maluf, que só não mantêm o cetro porque um morreu e outro está meio caidinho, respectivamente falando. O Sílvio Santos anda sendo humilhado até por criança, o Roberto Marinho já toma chá das cinco no além, falta RP ao Daniel Dantas para pleitear a vaga. Bornhausen e Ronaldo Caiado podem ser chamados de servos do malfadado: são aqueles que puxam a carroça das almas e dão chicotadas no povo em meio aos gemidos gerais – deputado é sempre um bicho tãããão sem graça…
Cá pra nós, desconfio que o dono do pedaço, o-que-não-tem-nome, seja mesmo o Roberto Justus.

Ele é a exata materialização de tudo o que é ruim para o Brasil. É um homem que nem mesmo sorri de graça. Quando sorri, é fácil adivinhar o cálculo que o sorriso lhe custou. E, vem cá, você chamaria aquilo de sorriso? Nem a Linda Blair maquiada em O Exorcista pode causar mais calafrios. Nem o Norman Bates. Um homem com o poder de, usando de um mero sorriso, levar as pessoas ao desespero – não parece uma boa descrição de Lúcifer, a Estrela-da-manhã?

Justus não é o único no Brasil a fazer sucesso jogando outras pessoas no cesto de lixo do seu escritório. Neste país, temos uma expressão para classificar estas pessoas: são os homens de sucesso. Mas Justus é um dos que ensinam o Brasil inteiro a fazer isso, e em rede nacional. O fato de que a esmagadora maioria dos brasileiros sonha em ser uma de suas vítimas, em estar pertinho do-que-não-seja, coaduna com a idéia de que ele, o anjo mau, é antes de tudo um ser extremamente sedutor.

Roberto Justus é um homem cheio de cobiça. Quer ser o sucessor do Silvio Santos. Só falta aprender a ser um comunicador mais eficiente. O resto, todo o punch necessário, é nato nele: é mau, humilha as pessoas em público, quer a maior vitrine, casa-se com mulheres bonitas, detesta os pobres e os bonzinhos, é rico e poderoso. E ele simplesmente adora o ambiente em que vive, da mesma maneira como apenas o capeta e seus ajudantes gostam do inferno. O que Justus adora é o capitalismo em seu estágio mais cru, aquele em que, para ter sucesso, você precisa desprezar os que estão à volta.

O anjo que, na mitologia católica (aquela do Paraíso Perdido, de Milton), odiava os homens por Deus ter-lhes conferido uma alma e, assim, tê-los alçado ao mesmo status que os seres angelicais, esse anjo era Lúcifer. Secundavam-no outros entes caídos, como Azazel e Belzebu, o senhor das moscas. Hoje o inferno está, há pelo menos um século, renovado pelas novas técnicas de marketing que os homens, justamente eles, ensinaram aos demônios. Não cabem moscas, nem mares de lava, lama e esterco: o novo inferno é um escritório clean, adornado de caras obras de arte, e o diabo já não grita de ódio, mas sorri – sorri de uma alegria que não sente, mas sabe que essa é a melhor maneira de seduzir os homens. Marketin, afinal, é o seu negócio. Ou melhor, o seu business.

E nós caímos feito uns patinhos.

Dante está aqui

24/06/09

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Idéia para um documentário com lances de ficção, ou de uma ficção documental. O filme chamaria São Paulo de Dante, ou algo assim. Seria uma viagem a partir do centro econômico da capital, mais exatamente do Morumbi; ao sul-sudeste do Morumbi, a câmera se encaminharia para os prédios da Marginal, para a Faria Lima e para a Berrini. Depois, chegaria aos Jardins, ao Campo Belo e ao Parque Marajoara. A norte, noroeste, iríamos pela Castelo Branco até chegar em Alphaville e Tamboré. Este é o primeiro ciclo.

No segundo, chegaríamos aos bairros de classe média: Ipiranga, Mooca; Santana, Vila Mariana e Aclimação; Vila Madalena e Vila Leopoldina. A grande maioria dos moradores de São Caetano. Há pequenos bolsões de miséria nos bairros da classe média, mas o que lá existe de mais infernal é outra coisa: é o medo. Os que moram no segundo ciclo têm medo dos que moram nos ciclos mais externos e, por algum motivo, admiram os que moram no primeiro ciclo, que são os habitueés da Revista Caras.

O terceiro ciclo é dos bairros de classe média baixa. O Cambuci, o Brás, a Penha, a Saúde, Santo Amaro, o Jaçanã e o Tucuruvi; a imensa maioria dos moradores de São Bernardo e Santo André. Não há exatamente fome no terceiro ciclo. Medo há, e muito: há medo dos que moram do quarto ciclo, medo dos pronunciamentos oficiais de prefeitos, governadores e presidentes, volta e meia anunciando alguma medida que, como sempre, pesa nos ombros dos terceiro-ciclanos. Todos sonham, também, com a Revista Caras.

Depois tem o quarto ciclo, que já é o da classe baixa. Itaquera, Guaianazes, Artur Alvim, Jardim Ângela, Capão Redondo, Capela do Socorro, Diadema, Guarulhos, Mauá, Mairiporã e Franco da Rocha. O quarto ciclo tem medo de si mesmo, tem medo de todos os outros ciclos e, mesmo sendo a maior vítima da situação – e não o maior culpado – tem medo da polícia. O quarto ciclo também tem, às vezes, fome. Só lê a Revista Caras casualmente, mas gosta.

As pessoas podem achar que parou por aí, mas não. Existe o quinto ciclo, na verdade um punhado de bolsões incrustados em todos os outros níveis: Paraisópolis, que está no Morumbi; a Tamarutaca, limítrofe com o burguês bairro Jardim, em Santo André; Heliópolis, entre o Sacomã e São João Clímaco; o Jardim Canhema, em Diadema; o lixão de Caieiras. O problema do quinto ciclo é que, como tudo o que é humano, ele não consegue atinar muito bem com os limites geográficos. Ele tem fome, tem vontade de muita coisa, também vê as propagandas da TV. O morador do quinto ciclo é o medo na consciência humana. A lei diz que ele pode parar em frente a uma mansão dos Jardins e ficar olhando para o portão, se quiser, para o resto de sua vida. Mas o dono da mansão, que está acima da lei e que tem medo, sobretudo, do quinto ciclo, chama o seu leão-de-chácara – no fundo um morador do terceiro ou do quarto ciclo – e manda embora o indigitado inoportuno.

O inferno, ao fim e ao cabo, é uma verdadeira bagunça. Dante ficaria decepcionado.

PS. A imagem, desenhada por Gustave Doré, mostra justamente um morador do quinto ciclo parado em frente a um portão nos Jardins. É uma invenção humana e, portanto, uma obra de ficção. Moradores do quinto ciclo não ficam parados em frente a portões nos Jardins, porque têm mais o que fazer.

Dois links de dois caras legais

22/06/09

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O Eduardo Correia é um craque do jornalismo e, como sói acontecer com craques do jornalismo, ele saiu das redações e foi para uma assessoria. Como também sói acontecer com os craques do jornalismo, ele aderiu à blogosfera: em seu novo blogue, fala de tudo, menos de coisas chatas. Diz que é tosco, e é um pouco, sim – gosta de futebol de botão (eu também) e d’Os Simpsons (idem) –, mas, e isso poucos sabem, é também um especialista em Gramsci, mestre em Comunicação, tendo sido um dos últimos orientandos do sociólogo Octavio Ianni.

Outro craque do jornalismo, também fora das redações, é o Luciano Somenzari, que aderiu, mais a título de experiência, à febre do twitter. Outro dia manifestou certo descontentamento com a ferramenta – é assim que são as febres: num dado momento a gente se dá conta do exagero de todas elas. Mas não deixa de ser bom encontrar personagens interessantes na web, no meio de tanta mediocridade. O Luciano é homem de vasta cultura – um anticapitalista empedernido, como eu –, tem grande talento literário e é fã do Ian McEwan.

A essas horas, é bom reforçar: enquanto o jornalismo, tal como o conhecemos, agoniza, a blogosfera vibra. Rei morto, rei posto, vida longa ao rei. 

O blogue da Petrobras e o prejuízo público

15/06/09

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Já participei de um sem-número de discussões na internet sobre monopólio e democratização dos meios de comunicação. Uma das brigas foi com um borra-botas da Folha de S. Paulo, de nome insípido e caráter idem, que defendia 100% a postura do seu jornal com relação à cobertura sobre o governo – ou melhor: sobre os governos, estadual e federal. Não vou aqui resgatar a história inteira da diferença de tratamento que os jornais têm dado às administrações Serra e Lula.

Se você é diletante no assunto, sugiro os blogues do Paulo Henrique Amorim, do Luiz Carlos Azenha e do Luiz Nassif, todos ardentes críticos dos jornalões, contra o de Reinaldo Azevedo e, claro, as páginas da Folha e do Estadão Online, com respectivos editoriais, para entender como a guerra da imprensa traveste hoje uma guerra política.

Pois bom: o último lance dessa guerra é o blogue da Petrobras, acerca do qual o Globo, a Folha e o Estadão têm feito um escândalo e tanto.

É prática comum a muitos repórteres – talvez, infelizmente, à maioria – sair à rua ou sentar à mesa com a pauta já pronta para o jornal. A pauta, claro, já foi cuidadosamente alinhavada para o repórter simplesmente dizer aquilo que seus editores, ou secretários de redação, ou donos de jornal querem que ele diga. Nesta perspectiva, o que suas fontes vão declarar é, no mais das vezes, irrelevante. E quem está escrevendo isso é um jornalista com vivência em redação.

Mas tem o seguinte: o repórter não pode deixar de tentar ouvir a pessoa ou a instituição que estão aparecendo mal na matéria. Se a reportagem for sobre uma prisão por homicídio, ele tem de tentar falar com o acusado. Se for uma denúncia de desvio de dinheiro público, ele tem de tentar falar com o suposto corrupto. Ele não faz isso porque é bonzinho ou porque “assim reza a cartilha do bom jornalismo”. Ele faz isso porque, quando fala mal de alguém, está abrindo portas para ser processado por injúria, calúnia e difamação, para ser preso e perder dinheiro em indenização. Basta, contudo, que ele tente falar com o outro lado da matéria, e provavelmente já estará livre do processo – e deixando um patrão feliz.

Mas quem não fica feliz é o tal de outro lado, que não percebe, muitas vezes, que está consubstanciando um ato de injúria contra si próprio. O repórter liga para o acusado de desviar dinheiro público e pergunta se ele desviou dinheiro público. O acusado pode dizer “não” e pronto: legitimou a matéria. Ele pode dizer “nada a declarar” e o repórter já estará satisfeito. A única coisa que o acusado nunca vai conseguir é que a matéria não saia, ou que não informe que ele desviou dinheiro público, mesmo que, afinal, ele seja inocente.

Ou seja: a grande imprensa, hoje, não tem compromisso nenhum com a verdade, mas com as acusações. Não quer informar, quer influenciar. O resultado é um grande problema. O público está desinformado e mal-influenciado. Quem é que está passando ao leitor – ou ao telespectador – a informação correta?

Informação correta – Com o blogue, a ideia da Petrobras, parece, foi a de passar a informação correta, mostrando para o público o outro lado das matérias publicadas por Folha, Estadão e pel’O Globo sobre a companhia. Prontamente, a campanha da Folha, do Estadão e d’o Globo passou a ser contra o blog da Petrobras. É uma campanha, em última análise, em prol do monopólio da notícia, dos meios de comunicação e, em conseqüência, da ignorância pública.

Claro que a grande imprensa tem, e sempre terá, argumentos em contrário. Antes de publicar a matéria, os repórteres, como escrevi, são obrigados a procurar o lado acusado. Isso significa que a Petrobras fica sabendo hoje da matéria que vai sair amanhã, porque recebe das redações as perguntas que vão livrar a cara dos jornalistas. O que a companhia tem feito é publicar estas perguntas com as respostas que a própria Petrobras elaborou – e que serão cuidadosamente editadas pelas redações, de maneira a que não livrem a cara da companhia numa matéria que seja contra a companhia, já acossada por uma CPI no Congresso.

O blogue é anti-ético? De jeito nenhum. Como escreveu Luiz Nassif, não existem perguntas em off – só respostas em off, e mesmo essas têm sido tratadas com abuso pela grande imprensa. Ademais, cabe lembrar duas coisas:

1) trata-se aqui da informação, direito público e constitucional, e não de uma mercadoria, como o petróleo. A única obrigação que um jornalista tem com a informação diz respeito a sua fonte, e a Petrobras é que é fonte da Folha, e não o contrário.

2) A Petrobras é uma companhia de direito misto, de origem estatal e, felizmente, ainda não foi completamente privatizada (ainda, mas esperem só um pouquinho…). Todas as informações sobre ela deveriam ser públicas. É justamente com isto que a imprensa joga para investigá-la a fundo, junto com o bloco oposicionista do Congresso. Os jornais, por outro lado, são todos particulares. Não há nada de errado nisto? Não terá uma empresa estatal, mais do que o direito, a obrigação de dialogar com a população de maneira oficial, sem se prender a jornais que são particulares?

A alegação dos jornais é de que o blogue da Petrobras denuncia aos concorrentes a matéria que repórteres estão fazendo; uma das brigas das redações, como se sabe, é para que umas furem às outras. Ou, como disse William Waack no Jornal da Globo, o furo seria a própria matéria-prima dos jornais.

Então, nesta semana, a Petrobras decidiu não publicar as perguntas a ela dirigidas com as respostas por ela elaboradas antes da publicação das matérias, mas só no dia em que as matérias vão sair. Os jornalões conseguiram que a companhia fosse boazinha com eles.

E, acredite, a frase seguinte é a mais simples que consegui para resumir o caso todo: empresas particulares estão alegando direitos públicos para manter em mãos particulares o monopólio da comunicação sobre uma empresa pública. O prejuízo – adivinhe – é do público.

O Kung Fu morreu

9/06/09
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Morreu David Carradine, o Pequeno Gafanhoto da clássica série Kung Fu, dos anos 1970. Um cult, como Tura Satana e Bettie Page. Depois de uma temporada de aprendizado espartano, Carradine punha-se a percorrer a América em busca de paz, o que não o impedia de entrar nos maiores quebra-paus contra o primeiro esquentadinho com que trombasse, o que acontecia em absolutamente todos os episódios. Era a cara da retórica estadunidense, o país que nunca, jamais atacou ninguém sem ter sido ostensivamente provocado primeiro.

Há uma pequena infâmia na história de como Carradine ganhou o papel que o imortalizou. A série Kung Fu foi criada por Bruce Lee, ele próprio, que já desempenhava na TV americana o papel de Kato, o ajudante do Besouro Verde. Lee inventou o seriado para que ele próprio assumisse o papel-título, mas a indústria o via como apenas um chinês fortinho e habilidoso, e havia um problema nisso: na cabeça dos produtores, o público americano nunca se identificaria com um personagem que não fosse ocidental, de preferência loirinho. Bruce Lee só teria sabido que foi passado para trás quando a série já estava estreando, e ele, injustiçado, voltou para Hong Kong, onde criou um legendária carreira cinematográfica – suficiente para ter aos seus pés os produtores que o haviam refutado, não tivesse o ator chinês sido assassinado em condições até hoje misteriosas.

Houve quem, por causa desta história, tenha considerado David Carradine o paradigma do mau-caratismo do star system hollywoodiano, o que também era um exagero. Se ele não houvesse substituído Lee, outro o teria feito, e pelo menos Carradine tinha os olhos puxadinhos – ele não sabia nada de kung-fu, mas para que servem os atores se eles não souberem fingir que sabem?

Fato é que o ator também nunca se notabilizou por seus dotes dramáticos e, tão-logo a série perdeu seu sabor de novidade – e é disso que vive o capitalismo –, o ator caiu num triste ostracismo. Até que nesta década foi resgatado por Quentin Tarantino, o maior diretor de pastiches de todos os tempos, e o ator pôde encarnar um personagem, o Bill, que era justamente um pastiche de seu antigo papel nos anos 70.

Cabe perguntar se, agora, na outra dimensão, Carradine encontrou respostas para perguntas como: “por que não há paz no mundo” e “o que vale mais, um navio ou uma laranja?” Esperamos que sim.

Vazou

27/05/09

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É uma experiência e tanto viver com medo, dizia o andróide interpretado por Rutger Hauer em Blade Runner, o clássico dos anos 1980. Em Maus, uma das mais premiadas histórias em quadrinhos, o autor, Art Spiegelman, descrevendo uma de suas sessões de terapia, diz ao psicólogo não entender como era viver em Auschwitz. “Bu!”, grita o psicólogo, um velho judeu, e Spiegelman leva um belo susto. “Pois é: viver em Auschwitz era sentir-se assim constantemente.”
Há devidas proporções a ser guardadas, mas o fato é que a humanidade arrumou para si um senhor problema quando inventou a tal de tecnologia nuclear. A radioatividade não é um brinquedo seguro nem para adultos. Ao menor descuido, ou mesmo que não haja descuido nenhum, ela mata, aleija, transmuta as pessoas.
No caso do acidente deste mês em Angra, houve descuido, diz a Eletrobras. Ninguém sabe quem se descuidou. Seis pessoas se contaminaram, mas foi só um pouquinho – teriam ficado menos radioativos do que quem tira uma chapa de raio-x, ou do que quem passa um fim de semana em Poços de Caldas.
Só que uma máquina de raio-x não é potencialmente explosiva, e uma garrafa de água mineral muito menos. Já uma usina nuclear é uma ameaça, o tempo todo, enquanto existir. A radioatividade com que ela lida poderia matar toda a população de Angra, e de Parati, e da Ilha Grande, e por lá afora, talvez além.
Aí vem a pergunta: por que o Brasil procurou essa dor de cabeça? Temos alguns dos maiores rios do mundo, quase metade das nossas divisas é banhada pelo mar, há sol o ano inteiro, há ventos em muitos estados. Poderíamos ter construído dezenas de usinas explorando recursos renováveis e sem o potencial explosivo de Angra 1, de Angra 2 – e de Angra 3, cuja construção foi retomada.
E tem também o seguinte: dentro da sociedade civil, sonoramente leiga no assunto, quem é que tem algum controle sobre o que acontece dentro da usina? Eu não tenho. Você não tem. Um pescador da Ilha Grande, um arquipélago maravilhoso e protegido por lei, certamente não terá. O vazamento de Angra pode ter sido da ordem de 0,1% do limite de segurança preconizado pela lei internacional, mas poderia ter sido de 10%, de 100%, de 1.000%, que pouquíssimos entenderiam o que isso significa.
E quando você convive com uma coisa que não conhece e que lhe é potencialmente letal, é como viver numa casa mal-assombrada. É viver com medo. Uma experiência e tanto.

Uma cultura do torturador

22/05/09

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No sábado passado fui, levado pela Kinha, ao Memorial da Resistência, o pequeno museu formado nos antigos porões do Deops, entre as estações da Luz e Júlio Prestes. 

Ele está aberto à visitação. O Governo do Estado, numa iniciativa no mínimo honrosa, autorizou-o como um dos locais para o qual as escolas estaduais estão autorizadas a levar excursões. 

(É, tem isso agora. Excursão de escola, só para locais autorizados pela Secretaria de Educação. Lembra quando você era guri e todo ano ia para o Playcenter? Ou, mais recentemente, para o Hopi Hari? Pois é: agora, neca de pitibiriba. Os nossos parques terão de se reformular, fazer “planos educacionais” para justificar a excursão das escolas. Pode-se adivinhar que eles estão numa fria, neste momento, pelo menos do ponto de vista financeiro. Agora, cá entre nós: sacanagem, né? Sacanagem com a molecada!) 

O Memorial da Resistência é um local pequeno. Dois corredores – três, se você contar o deprimente banho de sol, ainda conservado tal como era na época da repressão – e algumas celas, uma das quais decorada com colchões, fossa e toalha, para mostrar como funcionava o Deops. 

Uma das celas tem quatro linhas cronológicas, mostrando a história do prédio junto com a história política brasileira até os dias de hoje. 

Mas a cela em que o visitante fica mais, digamos, sensível é a última, cheia de fones de ouvido, na qual podemos ouvir depoimentos de ex-presos que sobreviveram. O sujeito mais empedernido sai de lá deveras tocado. 

Há dois problemas sérios no museu: 

1. Os depoimentos falam do dia-a-dia, das aflições, da solidariedade entre os presos, mas, sabe-se lá se por excesso de pudor ou cautela contra os arrivistas, não há descrições dos processos de cultura. A gente sente pena dos presos, fica sensibilizada com a dignidade deles, mas a indignação contra os repressores – que devia ser uma das primeiras preocupações do projeto, senão a primeira – tem seu impacto reduzido. 

2. Sabem-se os nomes dos torturados. Vêem-se seus rostos. Dos torturadores, nada. Um adolescente ou um adulto jovem, para quem a ditadura é uma nota nos livros de História, sai de lá com a impressão de que aquela carceragem era algo assim como uma casa mal-assombrada: o monstro é sobrenatural, não tem nome nem rosto. 

Neste segundo quesito, não se podem culpar os historiadores pela falha. Trata-se de um dos mais delicados assuntos para se discutir, em termos de política nacional, em todos os tempos. A explicação – por que o torturador não aparece? – está na disposição póstuma do governo em deixar para lá os anos de chumbo, uma disposição, aliás, bem brasileira. 

E perigosa. 

Os agentes da repressão acabaram, no final, sendo os maiores beneficiados pela Lei da Anistia, que, lembremos, era defendida com unhas e dentes pelas esquerdas e pela resistência entre os governos Geisel e Figueiredo. 

A Lei da Anistia permitiu que nossos amigos e parentes exilados voltassem livres ao Brasil e que muita gente encarcerada visse de novo a luz do sol – e pudesse lamber as feridas. 

Mas permitiu que o torturador saísse livre e não identificado, o que acabou sendo mais um ato de cinismo tipicamente brasileiro. A anistia apaga a sanção jurídica contra os chamados crimes políticos, mas a tortura está além deles: é considerada, pela ONU – no que é subscrita pelo Brasil – crime contra a humanidade. Como escrevi abaixo, um crime hediondo e imprescritível, passível de julgamento em Tribunal Internacional. 

O cinismo brasileiro é tanto que nós sabemos quem são os torturadores, ou pelo menos alguns deles. Outro dia mesmo, numa atitude fortemente simbólica defendida pelo jurista Fábio Konder Comparato, um dos torturadores, um coronel do Rio que atuara em São Paulo, foi levado a julgamento. O resultado seria nulo em termos práticos, mas poderia ser o primeiro reconhecimento jurídico de que se torturou no Brasil. O torturador, contudo, teve o processo extinto e está, neste momento, usando seu pijama e tomando suco de pitanga. 

Por outro lado, se a disposição das esquerdas em desnudar nosso passado arrefeceu com o processo de retomada política, a das direitas continua feroz. O Governo Lula, em sua atitude mais inacreditável até agora – e não estou falando do Mensalão –, defendeu a manutenção do sigilo sobre os arquivos militares. 

A justificativa: abrir os arquivos desnudaria segredos que, a bem da Segurança Nacional, jamais devem ser dados a conhecer. E não se fala aqui apenas na ditadura militar, mas também no Governo Getúlio, na República Velha – bolas: estamos falando de segredos até da Guerra do Paraguai! 

Neste ínterim, milhares de jovens estão tecendo em seus blogs loas a Roberto Campos, Gustavo Corção e a essa nova direita que de nova não tem nada. A ditadura militar, de movimento de repressão, vai ganhando, no imaginário político, ares de tempos românticos. 

Acho que foi Jacques Derrida que escreveu que a aceitação parcial dos acontecimentos na Alemanha pós-Segunda Guerra – quando EUA e URSS fecharam os olhos para pequenos delitos, de olho na simpatia de povos alemães e italianos e, conseqüentemente, na indexação política da Europa às ideologias capitalista e comunista – acabou tornando toda a civilização mundial um pouco nazista. 

É verdade! 

A visibilidade que o nosso passado de torturas tem junto às atuais gerações é tão pequena que estamos aceitando as pequenas torturas de que os brasileiros somos vítimas dia-a-dia. 

A ditadura, em certo sentido, jamais acabou. 

Ela está no pai de família alienado, que vê novela da Rede Globo e se pergunta, quando ouve notícias policiais no jornal, por que é que não matam aqueles bandidos todos. 

Está nos jornais que agora defendem que ela foi branda e que noticiam fatos antigos, fatos que nem aconteceram!, como se fossem uma ação terrorista planejada pela nossa hoje ministra. 

Está no segurança da Funhouse, que, há dois sábados, tentou quebrar meus dedos. 

É assim que vai continuar sendo.