Paz no país sem o poço

5/01/09


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Não há nenhum sentido no argumento de alguém que mata crianças dizendo que só está se defendendo. Querem te convencer de que a partir da morte de crianças será possível atingir a paz.

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É subterfúgio. As pretensões do estado de Israel são militaristas e imperialistas. Hitler invadiu, na seqüência, a Renânia, a Áustria, a Tcheco-eslováquia, a Polônia, a Lituânia, a Noruega, a Bélgica e a Holanda, a França e, enfim, a Rússia. Em todos os casos, Goebbels sempre dizia publicamente: “só estamos nos defendendo”.

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Em Israel, jovens estão sendo presos por se recusarem a participar do massacre. É possível apoiá-los.

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Na Folha: quando um jornalista procura Barack Obama, ainda não empossado, para que ele responda o que os EUA vão fazer para driblar a crise econômica, ele é solícito e dá horas de entrevistas. Quando procuram-no para responder se os EUA vão continuar apoiando a agressão de Israel, ele responde que só existe um presidente por vez.

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Obama sequer assumiu e já decepciona, tal como este blog anunciava quando de sua eleição.

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Mas ele não está preocupado: menos de 5% dos americanos se interessam por política externa.

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Claro que o apoio às iniciativas terroristas do Hamas – ou do Hezbollah, ou da Jihad Islâmica – seria uma estupidez. É assim que pensarão nossas cabeças, ehr…, civilizadas.

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O Hamas é o lado bandido da guerra. Israel é o Morumbi. A palestina é o Jardim Ângela. O Hamas, querem nos convencer, são os feinhos que se unem no Jardim Ângela tramando, dia-a-dia, contra as pacíficas mansões do Morumbi. O Hamas não representa todo o Jardim Ângela, mas, na medida em que os moradores pacíficos do bairro começam a tomar pancada dos moradores pacíficos do Morumbi, eles mais e mais simpatizam com os feinhos da sua vizinhança.

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Nessas horas eu penso em Lars Von Trier, o diretor dinamarquês. A história é a seguinte. Em 2004, Von Trier foi chamado para ganhar o Troféu Diamante, concedido por um comitê que reverenciava artistas que, segundo ele, lutavam pela paz. O diretor não compareceu ao evento, mas mandou uma fita de vídeo com o discurso de agradecimento. Ei-lo:

Caro Comitê pela Paz.
Eu acredito na paz que nem vocês.
E nós que acreditamos na paz temos como nossa tarefa nobre fazer com que todos no mundo pensem assim.
Mas nem todos no mundo querem isso.
Os povos do mundo são duas tribos habitando um deserto.
Uma tribo vive no país que tem o poço. A outra vive no país do outro lado.
A tribo no país que tem o poço quer paz.
A tribo no país do outro lado não quer paz - quer água!
A tribo no país do outro lado provavelmente é um pouco incivilizada e nem tem uma palavra para “paz”.
Mas tem uma palavra para sede, o que, nessa situação, é mais ou menos a mesma coisa.
O Comitê pela Paz no país com o poço é composto de pessoas boas, sábias, bonitas e ricas que não tem sede (é por isso que tem o tempo e a energia para o comitê).
As pessoas do país que tem o poço falam muito sobre o prêmio da paz que o Comitê entrega para outras pessoas do país que tem o poço.
As pessoas do país do outro lado não falam muito sobre o prêmio da paz.
Obrigado pelo Prêmio da Paz!

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O discurso foi censurado e exibido com cortes pelo Comitê pela Paz – o que é pecado capital para um artista como Von Trier.

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Só um detalhe: o jantar de entrega do prêmio custava US$ 1 mil o ingresso.

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Lou Reed – No Mais! da Folha de S. Paulo, uma entrevista com Lou Reed. Ele chama Jim Morrison e o The Doors de lixo californiano.

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A repórter descreve-o como um ególatra, e parece que ele é mesmo. A referência a Morrison é pra lá de deselegante. E o bardo californiano ainda mantém uma legião de fãs, que vão ficar um pouco descontentes com a menção.

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Nada disso impede que Lou Reed seja, na opinião deste blogueiro, o maior letrista da história do rock, à frente de John Lennon, Bob Dylan, Ian Curtis e Nick Cave. E à frente de Jim Morrison.

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Como disse Kirk Douglas a respeito de Stanley Kubrick: “as pessoas não precisam ser grandes para serem geniais. Elas podem ser umas merdas. Kubrick é um merda genial”.

Reflexões a mil a dois mil e oito

31/12/08

Amanhã é Ano Novo no Brasil, na Argentina, na França, nos EUA, na Austrália. Não é em Israel e nem na Palestina. Pena: eles não terão o que comemorar.

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Israel até agora matou 384 pessoas, inclusive mulheres e crianças, em Gaza. A ministra do Exterior, Tzipi Livni, disse que “ocasionalmente os civis também têm de pagar”. Ela talvez tivesse um microfone em mãos, ou um punhado de papéis, quando fez a declaração. Imagine, agora, que ela tinha outra coisa nas mãos; que fosse um pedaço de perna esfacelada, um pé com apenas três dedos, e que ele calçasse uma sandalinha número 29. Você consegue imaginar?

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A retórica é de que Israel está se defendendo. São 384 mortos de um lado contra 5 do outro. Dá 76 mortes de represália para cada uma do outro lado.

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Ao contrário da idéia que persiste no imaginário coletivo hoje, houve judeus que procuraram resistir ao julgo nazista no início dos anos 1940. A desocupação do Gueto de Varsóvia, que deveria durar dois dias, demorou mais de um mês. Um grupo heróico se encastelou contra o carrasco e conseguiu levar algumas vidas. Hitler ficou furioso. Havia uma determinação, instituída pela Gestapo e pelas SS, de que, a cada alemão morto por um judeu, russo, cigano, polonês ou similar na Segunda Guerra, 90 judeus, russos, ciganos ou similares fossem massacrados.

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Faça as contas: Israel está chegando perto.

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Mas aí vem um cretino e diz que, se eu critico o Estado de Israel, é porque sou anti-semita. É um truque retórico barato, mas resiste porque explora o enorme impacto que o Holocausto exerceu em todo o mundo. Destruí-lo devia ser simples: um Estado não representa uma etnia nem uma religião. Um Estado é um organismo político, tem regras políticas e responde por si só. O belicismo de Israel só é representativo da belicosidade de seus governantes e de grande parte de seus apoiadores. Mas não representa o judaísmo, assim como a Itália, laica como Israel, não representa o catolicismo.

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Um dos que exploram este argumento destruidor é o ex-colunista da Folha Nelson Ascher. É um brilhante poeta, mas como pensador não consegue evitar que os rancores pessoais interfiram no seu raciocínio. Este é um poema dele:
Direitos humanos já não perturbam
tirano algum, pois o slogan dos seus
guardiões são agora como o de Durban:
Abaixo o racismo e morte aos judeus.

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A guerra em Gaza é um augúrio de 2009, um que já vem sendo anunciado por políticos e jornalistas (“que 2009 nos seja leve”, escreve hoje Fernando Rodrigues). É a crise.

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E de onde vem a crise?

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Existe um conceito, largamente debatido em comunicação, que versa sobre “a profecia que promove a própria realização”. É assim: os jornais vêem a crise nos EUA, procuram economistas que dizem que ela pode chegar a estas terras, os políticos se preparam. Os empresários, temendo as vacas magras, começam a demitir. O consumo cai, os preços avançam. O fato de se temer uma crise desencadeia-a.

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Mas não sou um especialista em economia. Minhas opiniões – como a de que o editor-chefe do jornal francês Le Monde Diplomatique, Inacio Ramonet, exagera ao dizer que esta é a última crise do capitalismo – são baseadas em achismo de alto grau.

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O capitalismo não vai ruir até que haja algo para substituí-lo. Estamos longe, muito longe disso.

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O ano de 2008 me levou de volta aos shows. O melhor, na minha opinião, foi do Breeders, muito superior ao do REM, por exemplo.

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2009 também terá shows imperdíveis. Vai ver será um ano legal. Vai ver será.

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Mas não para os palestinos…

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Feliz ano novo, com Pítolo

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Arte nazista no Brasil

18/12/08

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Sensacionalismo o escambau! Demagogia o cazzo! A prisão de Caroline Pivetta da Motta, detida há quase dois meses por participar da pichação de um andar vazio – vazio! – da Bienal é um retrato acabado do Brasil. Os curadores da mostra, na Folha de hoje, consideram ‘pesada’ a prisão e ‘exagerada’ a repercussão. Os advogados de Caroline, somente cumprindo o seu dever, lembram: Daniel Dantas – todos sabemos quem é – não ficou nem sete dias preso.

Caroline “Sustos”, nome da gangue a que pertence, é pobre, é preta, é mulher. Todos os homens que estavam com ela e foram detidos juntos estão na rua. Ela, em cana. Os advogados já pediram dois habeas corpus, para que ela pudesse responder ao processo em liberdade. Foram negados. Primeiro detalhe certeiro do retrato do Brasil que o caso nos cede: pobres não têm direito à Justiça. Daniel Dantas tem, se é que, para ele, pode-se falar em “Justiça”.

Não é um caso novo. Há milhares de “moleques primários” – para citar Mano Brown –, ladrões de galinha, furtadores de pão esperando julgamento no fundo de uma cela no Brasil. Há uns poucos Dantas e Ângelos Calmons de Sás em grande aflição, neste exato momento, presas de terrível dúvida: Dom Perignon, Moët & Chandon, Veuve Clicquot: qual espumante comprar para o réveillon?

Ocorre, e eis porque o caso todo ganhou a imprensa e a sociedade, que a intervenção da gangue Sustos, Caroline junto, foi na Bienal. A discussão toda é: foi uma manifestação artística ou um mero ato de vandalismo? O paulistano médio vai alegar que está cansado da cidade suja, pintada com dizeres em código, de maneira que só os pichadores podem entender. Este paulistano médio é o que se posta defronte a uma parede com um ponto e, constrangido demais para dizer que não vê sentido naquilo tudo, chama a parede e o ponto de “geniais”.

Quer dizer: as duas manifestações ele não entende, as duas ele não acha bonitas, mas a do rico é genial e a do pobre, vandalismo. Ele, que terá pago para acessar o prédio – dinheiro que Caroline não tem – contemplará falsamente absorto as últimas estripulias de nossos mais geniais artistas plásticos.

Artistas que não mexeram um dedo até agora em protesto contra a prisão, ou pelo menos contra a manutenção da prisão, de Caroline. Nos anos 1960, possivelmente metade deles teria retirado as suas obras do prédio enquanto este ato de truculência durasse. Hoje eles estão de olho no futuro – provavelmente o de suas contas correntes.

Vale lembrar que uma das características do regime nazista, na Alemanha dos anos 1930/40, foi a repressão a diversas formas de arte. Hitler e seu primeiro na sucessão, o marechal Hermann Göering, eram fãs de arte – o führer fora um artista vagabundo e desconhecido nas ruas de Viena antes da primeira guerra.

No poder, Hitler organizou exposições com quadros de Picasso, Matisse e outros, mas só para o alto escalão da sociedade alemã, capaz de discernir que aquilo era o que ele chamava de arte degenerativa. As formas distorcidas do cubismo de Picasso, na verdade um meio de representar várias faces do mesmo objeto no plano chapado, transformaram-se, na visão brutalizada do líder nazista, na mera representação de pessoas, segundo ele, “defeituosas”.

Hitler mandou destruir milhares dos quadros modernos, em seu afã de preservar a raça pura contra o que hoje chamaríamos de “portadores de deficiência”. O cubismo, o fauvismo, o dadísmo e outras representações não-realistas eram então, o último grito. A história da política nazista com relação à arte é magnificamente descrita no documentário Arquitetura da Destruição, disponível em DVD no Brasil.

Depois, com Hitler queimando no fogo do inferno, a sociedade em geral deu novas chances para aqueles artistas. Hoje, cubismo, fauvismo e outras formas de arte moderna estão incorporados àquilo que consideramos o cânone da arte ocidental. Já aceitamos, inclusive, paredes brancas com um ponto preto. Só não conseguimos aceitar, ainda, pobres entrando no nosso prédio para se expressarem.

A rigor, não há grande diferença entre a postura dos curadores da Bienal e do Ministério Público e o projeto de arte pura de Hitler. Continuamos mandando para o limbo artistas, ou pelo menos artistas em potencial, e a sociedade continua, em geral, apoiando essa medida bárbara supostamente contra a barbárie. As classes artística e intelectual, apegadas com as unhas às mordomias que o establishment lhes concede, posicionam-se abertamente em favor da prisão da garota, e as exceções podem fazer pouco mais do que soltar pios mudos.

Tudo isso só poderia ter acontecido neste país que se recusa a punir os seus torturadores, a abrir os seus arquivos, a fiscalizar os seus porões, a fazer progredir o seu pensamento. Eis o quão acabado é o retrato brasileiro que a prisão da pichadora nos dá. Ah, dirá você, mas não é justo comparar o Brasil de hoje com a Alemanha nazista. Aquele era um estado totalitário; hoje vivemos numa democracia.

Diz isso para a Caroline.

Educação faria bem a Saramago

27/11/08
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Em visita a São Paulo, o escritor português José Saramago, uma famosa metralhadora verbal, disparou contra Paulo Coelho. Disse que “uma boa doença vale por toda a obra” do mago brasileiro.

Saramago carrega a empáfia de ser o único escritor em língua portuguesa a ter ganhado um prêmio Nobel. Coleciona fãs tanto entre os intelectuais quanto entre os leitores comuns. Vive a granjear inimigos na própria academia portuguesa, como é o caso do escritor Lobo Antunes. Tem um quê de comunista, outro de ateu, com os quais ataca impiedosamente as igrejas, principalmente a católica, ainda predominante em Portugal. Saramago tem seu lugar assegurado na posteridade; deve ser estudado à exaustão pelos cursos de letras, pelo menos nos países de língua portuguesa.

Enquanto isso, a fugacidade da obra de Paulo Coelho talvez o referende, no futuro, como um fenômeno de vendas localizado no tempo e ele seja esquecido quanto ao mais. Mas não é um fenômeno pequeno. Extrapola fronteiras, tornando-o comparável, em termos de literatura brasileira, apenas a Jorge Amado. Isso de fato justifica a sua inclusão na Academia Brasileira de Letras, como já defendeu o brilhante poeta Ivan Junqueira. Paulo Coelho tem, convenhamos, muito mais mérito do que figuras como Marco Maciel e José Sarney. Ainda que sua obra seja de fato indigesta para muita gente. Para mim, é.

As diferenças entre perfis, contudo, não justificam a falta de educação de Saramago. Ironia é, sim, componente indispensável a um grande escritor. As declarações públicas de sujeitos como Bocage, Ambrose Bierce, Chesterton, Machado de Assis, Eça e outros mais costumam aquecer o debate literário e ajudam a entender o mundo. Vejamos, por exemplo, Oscar Wilde: sua ironia condenou-o ao ostracismo, o que diz muito a respeito da hipocrisia da Inglaterra de seus tempos – e foi justamente aquela hipocrisia que ele passou a vida combatendo.

Mas, sendo Saramago um profundo conhecedor da ironia, caberia a ele saber diferenciar um comentário finamente cortante de um insulto gratuito. Quando fala de política, de igreja e muitas vezes de literatura, ele costuma empregar o recurso de maneira genial. O que declarou em sua visita ao Brasil, por outro lado, foi uma grande injustiça. Paulo Coelho, com toda a pobreza que sua obra talvez represente, é utilíssimo em impulsionar tantos jovens e velhos ao hábito da leitura – e muitos deles, mais tarde, tornam-se fãs incondicionais do próprio Saramago. De quebra, o mago serve de ponta-de-lança para o mercado editorial, que, no Brasil, sempre precisa desesperadamente de um empurrão.

Além disso, o escritor carioca, assim como Saramago, não se exime de dar tratos a assuntos espinhosos. Quando, há dois anos, o cantor Roberto Carlos conseguiu censurar a publicação de uma biografia não autorizada, Paulo Coelho foi um dos poucos artistas a levantar a voz contra a atitude. Que foi uma atitude ruim para a classe artística, mas a classe, no todo, manteve um silêncio sepulcral sobre o assunto, sinal de todo o corporativismo que grassa nela. E Coelho, sobretudo, fez a sua crítica com uma elegância e uma cortesia que talvez chocassem Saramago.

Pois parece que o Nobel português está infectado com os piores defeitos que dominam as academias de todo o Brasil. Sei bem quais são estes defeitos; eles muitas vezes me tiraram o sono neste meu primeiro ano de mestrado. Arrogância, petulância e, acima de tudo, um ego que não lhes permite enxergar um palmo à sua frente – enquanto que a maioria, ao contrário do que fizeram Saramago e Paulo Coelho, finge que todos são amiguinhos, em congressos e convenções. Como se a academia não precisasse urgentemente do debate, do paradoxo, da contradição – todos, bem entendido, seguindo as mais rigorosas normas de civilidade.

Neste caso, a falta de um ambiente acadêmico fez muito bem a Paulo Coelho, que vence o colega português no quesito educação, de longe.

PS. E tem também o seguinte: ninguém gosta que falem mal dos seus. Como na propaganda das Havaianas em que o Lázaro Ramos fala mal do Brasil para depois implicar com um argentino que fez a mesma coisa.

A educação está ficando inviável

13/11/08
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Destaque do Estadão de hoje: numa escola estadual do Belém, bairro nem mesmo muito periférico da cidade de São Paulo, professores ficaram trancados numa sala enquanto, lá fora, grupos de aluno quebravam carteiras e vidros. O prédio em que a escola funciona é tombado por seu valor histórico. E isto é só um pedaço da história; tem mais, veja o link.

Pode-se afirmar que atos de vandalismo e de ameaça como esses são um sinal destes tempos em que é mais difícil do que antes controlar gerações cada vez mais precoces na defesa de seus interesses – tão precoces que eles nem mesmo sabem ainda quais exatamente são os interesses que querem defender. Em vez de reivindicar educação de qualidade, uma cidade decente para morar, comida na mesa de todos, arte acessível e – por que não? – festas idem, preferem apenas bagunçar tudo sem saber muito bem por quê.

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Quatro dias de rock’n’roll

12/11/08
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Sábado passado teve o festival Planeta Terra, organizado pelo site homônimo. Na segunda a Folha de S. Paulo saiu com a crítica do evento. Foram três repórteres, e o show de que os três mais gostaram foi o do Jesus & Mary Chain. Tinha uma coisa curiosa a respeito do festival: só havia bandas dos anos 80 ou dos anos 00 no elenco. A única exceção era o Offspring, mas a apresentação da banda (punk dos anos 90) não foi exatamente a grande vedete do dia – mesmo a reportagem da Folha criticou-a.

Pensando bem, os anos 1990 não foram a melhor década para o rock’n’roll. Os 80 e os 00 foram melhores. A música em geral tem a característica de florescer melhor em épocas de inconformismo, e os anos 1990 foram um tempo em que todo mundo estava mais ou menos feliz com a vida – tanto que algum mané chegou a sugerir que a História tivesse terminado.  Claro que grandes bandas surgiram (Oasis, Belle and Sebastian) e outras, também boas, tiveram o seu auge nos 90 (Pulp, Blur). E teve o Nirvana, que foi uma espécie de paradigma do rock daquela época – e que, sintomaticamente, destruiu a si mesmo.


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Da idéia que se muda

7/11/08

Para começar: este post tem spoilers.

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Sempre que um livro de ficção faz muito sucesso, vira filme.  Normal. E sempre os leitores mais fanáticos ficam procurando semelhanças e diferenças – e estas eles quase que invariavelmente ressaltam para dizer que o filme é ruim – entre as duas obras. Normal também. Para se exercitar a tolerância, é preciso ter em mente que filme e livro são peças diferentes. Aliás, quase sempre são produtos diferentes – no sentido de que são produzidos com o intento de ganhar dinheiro e, como tal, todas as mudanças que a obra sofre na adaptação referem-se a detalhes que devem satisfazer mais a uma platéia do que aos leitores.

E é bom lembrar que estes dois grupos, platéia e leitores, também são públicos-alvo diferentes. Eles querem coisas diferentes, ambientam-se em locais diferentes, dispõem de tempos diferentes para fruir da obra. É muito difícil, assim, manter a fidelidade. (leia mais…)

Mundo masoquista

6/11/08
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Diz o Uol, neste exato momento, que a principal causa de mortes no mundo são as “doenças ligadas ao estilo de vida”. Fascinante. Caso você não saiba, ligadas ao estilo de vida são doenças do coração, hipertensão e acidente vascular cerebral (o popular derrame), entre outras. São doenças que não precisam de uma infecção para aparecer. Ou de um parasita, tipo lombriga. Aparecem, na verdade, por causa dos seus hábitos. Se você fuma, é um sério candidato a um infarto, um derrame. O cigarro, no caso, é a sua lombriga.

Cigarro, uísque, Mc Donalds y otras cositas mas são o que a Organização Mundial da Saúde chama de “estilo de vida”. Você provavelmente já desconfiava, mas lá vai: o estilo de vida da população mundial está cada vez com mais hábitos ruins. Esta é a hora em que você diz: “ah, vá! Só contaram pra você!”. Quer, então, uma novidade realmente nova? Pois segura: quanto mais desenvolvido um país, pior o “estilo de vida” das pessoas. Em outras palavras, se você tem dinheiro, significa que provavelmente vai mais ao Mc Donalds. E que ainda morre disso.

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Operação de canal

5/11/08