Archive for Março, 2009

O OUTONO

Quarta-feira, Março 25th, 2009

Estou começando a gostar do outono.
As preferências pelas estações do ano são explicadas de várias maneiras e por muitas razões, algumas mais consistentes e outras não.
Há quem não goste do inverno e prefira o verão por preferir o calor ao frio. Ou como algumas crianças que não gostam do outono por preferirem o verão das férias. Ou ainda, há quem deteste o inverno como o Gigante Egoísta do conto de Oscar Wilde, aquele que por causa do seu muro de egoísmo, fez com que fosse sempre um inverno em seu jardim enquanto as estações desfilavam na companhia das crianças por ele banidas do lado de lá de sua muralha fria.
Nessa história, o Gigante após aprender que sem crianças não há primavera, ele passou a “não odiar mais o inverno, pois sabia que era apenas a Primavera adormecida e que as flores estavam descansando”.
Eis o grande segredo para se gostar de cada uma das estações, acreditar que elas estão umas nas outras anunciando o quanto a anterior foi bela e a próxima também o será.
É tolice tentar eternizar uma estação, isso é ir contra o ciclo natural da vida.
Sexta-Feira passada eu acordei bem cedo para me despedir do último sol de verão que alvorecia trazendo os novos tons outonais.
Fiquei olhando para ele enquanto as crianças e outras coisas despertavam em minha vida.
Sabe de uma coisa? Eu nunca me considerei um camarada contemplativo. Perdi muitas oportunidades e me lembro do prazer que tive quando me presenteei com esses momentos.
Também não era de prestar a atenção nas estações do ano; quanto desperdício……
No Brasil abaixo do equador, os meteorologistas afirmam que clima de outono mesmo só no final de abril, com as quaresmeiras e acácias dominando em algumas regiões do país e as noites mais longas com madrugadas e manhãs com temperaturas baixas.
Então, considerando as diferenças dos outonos boreais, austrais e se posso dizer equatoriais, há algumas características que são emblemáticas e comuns para todas as pessoas e lugares e eu só quero me ater a uma delas ao encerrar essas linhas.
As folhas mudam de cor e caem.
Li uma vez que um homem que chega aos cinquenta anos e diz que continua pensando igual aos vinte anos terminou perdendo trinta anos de sua vida.
Custamos a entender que os nossos tempos verdejantes, vigorosos e resistentes aos ventos e tempestades de verão eram para nos prepararem para um novo tom feito ouro refinado e um novo movimento de desapego e leveza naquelas folhas tão agarradas aos galhos.
No outono aprendemos que cair não é decadência, mas sim uma oportunidade de transcendência e despertar.
As folhas caem juntas na terra como se buscassem as raízes.
Com o tempo, barro e folhas misturados pelos pés ou patas trarão um novo húmus que tocarão as raízes.
E assim, as folhas escondidas nas raízes serão acolhidas pelo inverno que nos convidará ao recolhimento necessário até que a primavera inaugure mais um ciclo de uma vida que é bela e significativa em toda e qualquer estação ou situação.

SOBRE A SEXTA-FEIRA 13 - 4.6 - quatro ponto seis

Sábado, Março 14th, 2009

“Aquilo que eu nego me suja. O que eu aceito é transformado e purificado”.

ANSELM GRüN

Chego aos meus 46 anos orando a Prece da Serenidade.

“Deus!

Concede-me SERENIDADE

para aceitar as coisas que eu não posso mudar – pelo menos agora -,

CORAGEM

para mudar aquelas que podem ser mudadas e

DISCERNIMENTO

para saber diferenciar entre uma e outra.”

Chego aos meus 46 anos buscando a AUTOPERCEPÇÃO, e então, oro novamente.

“Deus!

Ajuda-me a insistir em saber exatamente quais são os traços de minha CARICATURA.

As visíveis e invisíveis.

Dá-me perseverança e forças

para procurar saber como ESTOU.”

Chego aos meus 46 anos buscando o meu Ideal Maior, e então eu oro mais uma vez.

“Deus!

Sei que em teu Filho Jesus eu posso avançar no processo de maturidade.

Amadurecer me parecendo mais com a Trindade sem perder a humanidade e resgatando a IMAGEM DE DEUS única que sou pela Graça e o Amor do Senhor”.

Chego aos meus 46 anos sabendo que HÁ EM MIM coisas boas e ruins, potencialidades benditas e malditas, fruto do Espírito e obras da Carne, enfim, trigo e joio.

Portanto, chego aos meus 46 anos buscando mais serenidade, coragem, discernimento, perseverança e maturidade.

Sobretudo, quero avançar na jornada da reconciliação COMIGO MESMO desejando cada vez mais honestidade, integridade e verdade que nada tem a ver com a moralidade hipócrita e o expediente das posturas politicamente corretas tão bem usadas pelos adoradores da conveniência previsível e estéril.

I Can’t Get No

Domingo, Março 8th, 2009

À luz do antropólogo francês René Girard, um dos meus preferidos preletores falou o quanto somos seres desejantes e cobiçosos.
Girard é considerado um dos raros “antropólogos da religião”, foi ele quem desenvolveu a tese do desejo mimético que é uma explicação global do conflito em nossas sociedades, baseada na análise do papel central do bode expiatório.
Em uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo em outubro de 1999, René Girard revela o seu ponto de partida reflexivo dizendo que “o ato fundamental da sociedade primitiva, que está na origem da nossa, é designar uma vítima, um bode expiatório, e cultivar a ilusão de sua culpabilidade para permitir a expulsão de todas as espécies de tensão coletiva. Essa ilusão é, em seguida, fundadora dos ritos, que a perpetuam no tempo e conservam formas culturais que acabam nas instituições”.
Girard ensina que o comportamento mimético, no estágio coletivo, é resultado do desejo mimético, que nasce no estágio individual.
Diz ainda que o Décimo Mandamento da Lei Mosaica – não cobiçarás – se sobressai entre os que o precede: “Esse último mandamento é freqüentemente negligenciado, embora seja extremamente importante, na medida em que visa, justamente, ao mais banal dos desejos, o mais comum e, na aparência, o mais anódino. Já que esse desejo é o mais comum de todos, o que ocorreria se, em vez de ser proibido, fosse tolerado e até encorajado? A resposta vem por si: a guerra seria perpétua entre todos os grupos humanos. Acredita-se que o desejo é objetivo ou subjetivo, mas na realidade, ele reside num outro que valoriza os objetos, o mais próximo, o próximo. Para manter a paz entre os homens, é necessário definir a proibição em função dessa terrível constatação: o próximo é o modelo dos nossos desejos”.
O monge beneditino Anselm Grün diz que “só há uma coisa que não conseguimos falsificar: o desejo. Pois um desejo não é possível de a pessoa manipular. A pessoa humana é seu desejo. O desejo é realmente a qualidade mais honesta em todas as pessoas”.
Grün se baseia no pensamento do filósofo Ernest Bloch que diz: “Descobri em minha vida que o desejo é a única qualidade honesta do ser humano”.
Em outro momento, Grün cita o clássico dos Rolling Stones I can’t get no satisfaction, e o faz para ilustrar a angustia desses seres cobiçosos em que nos transformamos.
Enquanto escrevo essas linhas eu ouço o grito da alma cantado por Mick Jagger sob os acordes da velha e boa banda e canto a musica pensando em nós, seres sedentos.
Sim, somos seres insaciáveis.
Não conseguimos nos satisfazer, não, não conseguimos.
Tentamos e tentamos, mas não conseguimos, sim não conseguimos.
Ouvimos no rádio de nossos carros informações inuteis que pôe fogo em nossas imaginações, ao virmos tv, pensam nos convencer que aquela camiseta e aquele cigarro podem nos transformam em O CARA ou A CARA na CARAS.
Andamos ao redor do mundo fazendo isso e assinando aquilo, e pensando que seremos melhores porque nós temos garotas para transar e marcas que não podemos perder.
Poderiamos arriscar algumas novas estrofes para atualizarmos essa jóia maravilhosa a segunda entre as 500 músicas de sempre, mas isso é desnecessário pois ainda somos seres sedentos e o nosso modo de ser sociedade consumista só inovou um pouco a velha apelação à cobiça.
Encerro relembrando aquele encontro entre Jesus e a Mulher Samaritana no poço de Jacó.
“Chegou, pois, a uma cidade samaritana, chamada Sicar, perto das terras que Jacó dera a seu filho José.
Estava ali a fonte de Jacó. Cansado da viagem, assentara-se Jesus junto à fonte, por volta da hora sexta.
Nisto, veio uma mulher samaritana tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. Pois seus discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos.
Então, lhe disse a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana (porque os judeus não se dão com os samaritanos)?
Replicou-lhe Jesus: Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.
Respondeu-lhe ela: Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva?
És tu, porventura, maior do que Jacó, o nosso pai, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu, e, bem assim, seus filhos, e seu gado?
Afirmou-lhe Jesus: Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.
Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la”.
Procure uma Bíblia e leia o capítulo 4 do Evangelho de João e confira toda a história, vale a pena.

Àquelas Mulheres

Sábado, Março 7th, 2009

Ontem enquanto aguardava um dos semáforos da Avenida Goiás me deixar seguir, pude ver uma mulher bêbada que lutava para se equilibrar entre a calçada e a rua para oferecer o seu corpo aos motoristas dos carros da frente para uma relação sexual que lhe rendesse mais alguns goles.
Dirigi mais uns cinqüenta metros e estacionei o carro na Avenida e entrei……, entrei na Associação Antialcoólica do Estado de São Paulo.
Eu fui prestigiar o meu filho na fé Nelson Kostecki que iria receber mais uma homenagem pelos seus 11 anos e três dias de cara limpa.
Fui recebido pelo meu amigo radiante de felicidade e me assentei na mesma fileira de cadeiras onde estava a sua noiva, mãe e acho que uma tia.
Quem fazia uso da palavra era o mentor e psicólogo – um verdadeiro pastor – Claudio Amâncio que em uma palestra – uma verdadeira pregação – irretocável, nos ensinou sobre a oração da serenidade.
Enquanto eu o ouvia em sua mensagem e homenagens às mulheres presentes, pude correr os olhos por faces e expressões das pessoas que lotaram aquele auditório que se revelou mais uma vez como o santuário da Graça de Deus ou do Poder Superior como alguns deles preferem dizer.
Vi mães, companheiras e filhas emocionadas e felizes só por ontem.
Lágrimas e risos davam aos rostos sofridos daquelas mulheres uma beleza única, um ar de céu cheio de humanidade.
Procure saber mais sobre o A.A., visite o SITE ( www.alcoolicosanonimos.org.br ).
Sei que estou arriscando uma apologia piegas às Amélias, mas penso que ser mulher de verdade também tem a ver com o bem que aquelas mulheres fazem para si mesmas e para os seus alcoólicos em recuperação.
Vivemos em tempos onde a lógica do descartável enodoou algumas das mais eficientes virtudes dessa perseverança amorosa que só a mulher pode expressar.
Falo da gana de sempre com ou sem grana, falo da estranha mania de ter fé na vida quando um morrer sombrio nos faz sobreviventes da agonia.
Ontem eu vi Marias com dons e magias que vivem rindo quando devem chorar e muitas vezes não vivem, mas apenas agüentam.
Continuo dando razão ao Milton quando me lembro daqueles rostos e de algumas histórias daquelas mulheres.
Sim, é preciso ter força, é preciso ter raça misturando dor e alegria.
Ser, também, mulher assim é algo digno de ser admirado e aplaudido.
A todas as Mulheres, mas especialmente àquelas: Feliz Dia das Mulheres!