Archive for Março, 2008

JOGOS POLÍTICOS

Segunda-feira, Março 24th, 2008

JOGOS POLÍTICOS
Por Levi Araújo
“O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.”
Fernando Pessoa
A disputa política é um jogo, seja ela interna ou externa, não passa de um jogo.
Se pudessem, alguns companheiros de lida político partidária nos chamariam para uma quadra de tênis, vendariam os nossos olhos e nos posicionariam de costas para a rede com uma raquete furada.
Certamente que esse tipo de situação ou jogo dificilmente seria aceito por uma pessoa com o mínimo de juízo, mas como em política muitas vezes juízo falta e de prejuízo se esbalda, pode ser que alguém aceite jogar como um imbecil só para sobreviver entre os argutos da politicalha.
Penso que a política é como um jogo de xadrez.
Quase nada sei sobre esse jogo e pouco domino dessa arte da guerra em tabuleiros. Azar o meu.
Mas eu posso aprender e então o azar passa para os outros.
No caso dos políticos inseguros é grande o desinteresse em que os outros não aprendam a jogar direito.
O pavor de ser derrotado, substituído ou trocado tem proporções descomunais para aqueles que não querem jamais aprender a perder.
Para esses amantes dos louros, ter um adversário a altura não interessa.
E mais, o que puder ser feito para obstaculizar o aprendizado será feito.
O que importa para esses iludidos por pódio é continuar ganhando e ganhando e ganhando mais.
Sabemos que na vida e no jogo – com ou sem sorte no amor – ganhar sempre simplesmente não existe.
Parafraseando um hino antigo, é preciso saber viver e aprender a jogar, nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar.
E jogar e viver implica necessariamente em aprender a perder.
Quantas vezes nós vimos jogos em que um time infinitamente superior enfrentou um outro time de pernas de pau e a partida se transformou em um clássico de campeonato de fazenda.
Quando a arte é o mais belo do jogo é deixado de lado, o que vale é o pragmatismo fanático de quem não aceita a derrota de jeito nenhum.
Ai vale tudo, roubar, trapacear, enganar, fazer gol impedido, de mão, de nádega…, pois o que realmente importa é vencer. Só vencer.
Outra coisa que se faz entre jogos e alguns jogadores é ridicularizar e menosprezar os adversários.
Eis ai um jeito arriscado de jogar.
Pode ser engraçado garantindo umas boas gargalhadas e proporcionar prazer, mas que é arriscado, isso é.
Arriscado porque pode significar pancadaria sem que o jogo termine e vexame e vergonha se tudo terminar em derrota no final.
Sim, porque no jogo, você pode até desacreditar, mas um pato pode virar zebra e na vida, alguns sapos viram príncipes.
Não são poucas as histórias em que azarões venceram alazões.
No xadrez uma das peças mais importantes é o cavalo.
Quando me disseram isso eu pensei que tinha alguma coisa a ver com o seu movimento em “L”.
Apesar de eu gostar demais dessa letra, a explicação está longe de ser simplista ou irônica.
De movimentação peculiar o Cavalo difere das outras peças de xadrez pulando qualquer obstáculo e sendo a única peça que pode atacar a Dama ou qualquer outra peça sem ser atacado por elas ao mesmo tempo
O Cavalo quando está em d4 é o terror do tabuleiro travando ataques enquanto ataca com vigor.
Uma das melhores estratégias de defesa está em não deixar o centro do tabuleiro ser dominado por um cavalo adversário.
Entre o melhor da política e o que há de pior na politicalha, os valores dados às pessoas, vida, ciência e arte são alterados sem pudores.
No jogo político, para o meu desgosto e contra o gosto dos melhores políticos, o que vale é o jogo e nunca as pessoas, o que interessa é o poder e nunca a utopia.

”Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca”
Fernando Pessoa
Tem que haver uma outra maneira de viver e jogar.

Déjà-vu de humanidades

Sexta-feira, Março 21st, 2008

Em recolhimento pascal eu escrevo essas linhas apreciando um Marquês de La Concondia que ganhei de meu hermanito Victor recém chegado da Espanha.

Logo cedinho, como de costume, teclei brevemente com um filho-amigo sempre presente e que não abraço há anos.

Lá da América do Norte nos pastoreamos mutuamente quase que diariamente. Ele é o primeiro a me dizer bom dia quase todo o dia. Por isso que creio que o LONGE-PERTO não define a amizade. (more…)

DESAGRAVO AO POVO TIBETANO

Quarta-feira, Março 19th, 2008

DESAGRAVO AO POVO TIBETANO
Por Levi Araújo

Não é a primeira vez que cristãos evangélicos ficam ao lado de monges budistas.
O pastor batista e premio Nobel da Paz Martin Luther King Junior respeitava o trabalho de Thich Nhat Hanh chegando a indicar o Monge budista vietnamita, poeta e ativista dos direitos humanos para receber o mesmo prêmio no ano de 1967.
Recentemente escrevi um artigo intitulado “Monge Budista desde pequenininho” que está publicado no site dos Budistas Engajados. Entre outras coisas eu escrevi o seguinte:

Sim camaradas, quando o inimigo é comum a beligerância recrudesce. (-) Sou cristão convicto, seguidor de Jesus de Nazaré, mas hoje eu sou monge budista birmanês desde pequenininho.
Arrisco mais uma vez ter o estigma de herege e espero as pedradas dos incautos, pois sempre estarei do lado de todo devoto que se expõe sem medo de ser crente e ao lado da justiça contra todo e qualquer regime opressor, seja ele, inclusive, de confissão religiosa “.

Lhasa, capital do Tibet viveu a sua mais significativa manifestação por liberdade em sua história recente e os manifestantes tibetanos sofreram uma brutal repressão do Governo Chinês.
Pessoas morreram e outros estão sendo intimidados e os comboios do exercito repressor seguem pelas montanhas do Himalaia para, segundo a versão oficial dos dominadores - garantir “a soberania nacional e a integridade territorial” impondo “ordem” entre os “perigosos e baderneiros” tibetanos que foram “insuflados” pelos “monges revolucionários” comandados pelo “perigoso” Dalai-Lama.
A imprensa internacional está sofrendo censura e não pode acompanhar com isenção as manobras de garantia de posse do Topo do Mundo e do controle de grande parte do sul da Ásia, e parte da Ásia Central.
Sabemos que a Região do Himalaia interessa a outras potencias mundiais, principalmente os Estado Unidos e não desconhecemos a simpatia e parceria que há entre Dalai-Lama e “os paladinos ocidentais da liberdade”.
Entretanto, considerando as nossas convicções enquanto cristãos, encontramos nestes fatos razão suficiente para nos manifestarmos publicamente contra qualquer opressão e repudiamos qualquer dominação opressora.
Não podemos concordar com as veiculações das versões da industria do turismo no Tibet e os dos grandes investidores e organizadores das Olimpíadas da China que mobilizam parte da imprensa para estimular a surdes da comunidade internacional ante aos gritos da nação tibetana por liberdade e, com isso, seguir maculando as manifestações legítimas dos insurrectos e suavizando a violenta repressão do Governo Chinês ao povo que clama por independência há anos, desde que foram dominados em 1950.
Nós Cristãos, sabemos muito bem o que significa viver sob arbitrariedades, torturas, opressões e perseguições.
Nós Cristãos, conhecemos o peso das garras de ferro de regimes totalitários.
Nós Cristãos, provamos na pele diariamente os crimes contra os direitos humanos no interior e subterrâneos da China.
Assim, estamos legitimados pelo que cremos e vivemos a protestamos com veemência:

Pelo fim da violência e opressão dos tibetanos em Lhasa
e por um Tibet livre!”

Esse é o jeito de marchar da Aliança Cristã Evangélica Brasileira.


O MEU HOJE

Quinta-feira, Março 13th, 2008

O MEU HOJE
Por Levi Araújo
O meu hoje começou ontem enquanto eu tomava vinho com um dos meus poucos irmãos nascidos na angustia.
No ontem de meu hoje, com esse camarada de vinagre, pudemos contar nos dedos de uma mão os poucos que ainda sabem um pouco sobre o ser amigo.
Por sermos amigos nós divergimos, e uma de nossas discordâncias está no elemento presença - ausência quando o tema é amizade. Eu realmente não creio que isso seja condição absoluta para se reconhecer uma amizade.
Nove vezes fora, ontem adormeci agradecido pelo meu dia que começou ontem ao lado de um irmão que por existir, me basta.
Acordei pensando em Fernando Pessoa e Brecht e resolvi visitá-los.
Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis“. B.B.
Fossemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece”. B.B.
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”  F.P.
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…” F.P.
Precisava de uma música antes do café e pensei qual seria aquela que poderia me embalar hoje como um fundo musical.
Eu escolhi Walk On do U2.
(Há um santuário onde eu ouço U2 com outro irmão nascido na Angústia, o TEMPLO 141)
O Profeta Bono me diz para que eu siga em frente na Jornada,!
Sim é disso que eu preciso para hoje. Só por hoje!
Com a única bagagem que não se pode deixar para trás e com a coragem de deixar para trás todo o resto.
Seguir em frente para o Lar.
O Lar que é visitado toda a vez que eu decido seguir adiante.
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar”.
Fernando Pessoa

Só não me peça para sorrir

Quarta-feira, Março 12th, 2008

Só não me peça para sorrir.
Por Levi Araújo
 

Há coisas que vão perdendo a graça.
Dizem que uma de minhas características marcantes é o sorriso, mas o fato é que lamentavelmente eu não vejo mais graça em algumas coisas.
Por exemplo, a tal da LOST, já deu o que tinha que dar, apesar de anunciarem que a série terá mais duas temporadas.
Envoltos em intermináveis retrospectivas pessoais, os perdidos que estavam na ilha queriam sair e parece que recentemente quem saiu está querendo voltar. A mensagem que fica é que se pode estar perdido independentemente do tempo e do espaço. Legal, mas…
Sentir-se achacado é algo profundamente desagradável e viver levando passa-moleques não é nada aprazível.
Um amigo disse que em política de alianças o melhor jogo para se jogar é o frescobol, pois a idéia está em passar a bola redonda para o outro jogador, assim, o jogo só tem razão de ser se os dois jogadores trocarem a competição pela cooperação.
No Frescobol não existe rivalidade, não há vencidos e nem vencedores. Como se joga cooperativamente, não há adversários e sim parceiros. É um jogo onde cultiva-se a amizade e o comprometimento nas jogadas.
Como debutante na política partidária eu tenho observado exatamente o contrário.
Alguns daqueles que se dizem parceiros, companheiros ou camaradas insistem na oração interesseira “venha a nós tudo e ao vosso reino…, nada
Há quem diga que o frescobol é um jogo sem graça, mas eu acho que existem outros jogos muito mais sem graça, por exemplo, o jogo do poder pelo poder ou os jogos de manipulações de pessoas bem intencionadas.
Eu não acho graça nenhuma em participar de um grupo onde eu não possa me expressar livremente, articular com legitimidade e grandeza e ser protagonista durante todo o processo de construção do chamado - e muitas vezes não vivido - projeto coletivo.
Por enquanto eu não estou achando graça nenhuma e peço uma gentileza aos até agora “futuros aliados”, não espere sorrisos deste camarada enquanto essa postura sem graça continuar.

O ORGULHO

Sexta-feira, Março 7th, 2008

A vaidade falaz, corvo insaciável, após consumir tudo, se devora”.
Ricardo em RICARDO II de Shakespeare.
Nesse começo do mês de março eu fui levado a pensar em orgulho por três motivos: A convivência com um camarada que completará 45 anos no próximo dia 13, um contato recente com um jovem umbigólatra que realmente se acha e um convite para falar sobre o Irmão Mais Velho da parábola do Filho Pródigo sob o olhar meditativo de Henri Nouwen baseado na obra A VOLTA DO FILHO PRÓDIGO de Rembrandt.
Na jornada do autoconhecimento faz-se necessário ser cuidadoso, generoso e paciente consigo mesmo. Muita, mas muita calma nessa hora.
Como falar do que os antigos gregos chamavam de hubris sem reforçar os arrogantes enrustidos sob a capa de humildade e os orgulhosos hábeis no discurso que não se pode perder o respeito próprio? Como saber quando estamos subestimando ou superestimando valores, princípios e imagens pessoais?
No eneagrama algumas pessoas são representam pelo tipo 2 (dois), o Orgulho.
São aquelas pessoas que temem não ser amadas ou desejadas e, quando se sentem pouco apreciadas ou trocadas, ficam ressentidas, queixosas e profundamente amarguradas como eternas vítimas da ingratidão alheia sofrendo muito com doenças psicossomáticas podendo chegar à hipocondria.
São indivíduos manipuladores e aleivosos que no limite a agressividade e do egoísmo sabem usar com requinte cruel as debilidades do outro. E são especialistas em chamar a atenção para si mesmo e os seus atos.
Estas pessoas altivas sabem racionalizar e se autojustificar de tudo o que fazem e se sentem no e com o direito a tudo.
Entretanto, se o soberbo optar sair do egoísmo em direção ao altruísmo na senda da humildade, dando mais valor ao ser do que ao fazer conseguindo viver sem nenhuma necessidade de confirmação e aprovação dos outros, nós seremos abençoados com um grande companheiro em nosso convívio, seremos agraciados com a presença de uma pessoa empática, compassiva, afetuosa e amorosa.
Anselm Grün diz o seguinte: “Em última análise, é a soberba que provoca o medo. Assim, a conversa com o meu medo poderá me conduzir à humildade, isto é, a humilitas. E eu poderei reconciliar-me com meus limites, com minhas fraquezas e falhas, dizendo, por exemplo: ‘Posso cometer gafes. Não tenho obrigação de poder tudo”.
Quando os presunçosos começam a admitir as suas próprias necessidades e abandonam a pretensão de uma doação interminável, encontrarão a liberdade no dizer “não”, ou “não posso fazer isso por você”, “Não nasci para ser o Messias” e, definitivamente, “não farei mais às vezes de Deus”.
Entre a arrogância e a baixa estima só há um caminho, decidir por onde pisar daqui para frente é com você, só com você.

Um pouco de BOFF

Terça-feira, Março 4th, 2008

Segue um texto enviado pela minha amiga Isabelle. Vocês lembram do artigo DISTOPIAS? e de alguns delírios utópicos em meus últimos textos? Pois é….

O resgate da utopia’, por Leonardo Boff *

No desamparo que grassa na humanidade atual faz-se urgente resgatar o sentido libertador da utopia. Na verdade, vivemos no olho de uma crise civilizacional de proporções planetárias. Toda crise oferece chances de transformação bem como riscos de fracasso. Na crise, medo e esperança se mesclam, especialmente agora que estamos já dentro do aquecimento global. Precisamos de esperança. Ela se expressa na linguagem das utopias. Estas por sua natureza, nunca vão se realizar totalmente. Mas elas nos mantém caminhando. Bem disse o irlandês Oscar Wilde:”Um mapa do mundo que não inclua a utopia não é digno de se espiar, pois ignora o único território em que a humanidade sempre atraca, partindo em seguida, para uma terra ainda melhor”. Entre nós acertadamente observou o poeta Mário Quintana: “Se as coisas são inatingíveis…ora!/Não é motivo para não querê-las/Que tristes os caminhos e se não fora/ A mágica presença das estrelas”. (more…)