Archive for Junho, 2007

A sinfonia dos pequenos heróis

Terça-feira, Junho 26th, 2007

A mais popular das peças de Beethoven é a que mais me encanta e emociona.

Não só pelas condições como foi composta, mas pela mensagem pujante capaz de imprimir força motivacional encorajando os diferentes que fazem a diferença.

É a trilha musical dos protagonistas anônimos, é o hino da alma de todos os olhares e saberes que não aceitam tiranias e sabem que a liberdade precede a igualdade e fraternidade como bem ensinou Arendt.

A Nona Sinfonia é uma verdadeira profissão de fé das mentes de ideais livres que não aceitam os absolutismos e a truculências dos déspotas tendo como arquétipo essencial da existência a construção coletiva e o bem comum.

É um canto alegre, vivaz e celebrante que traz um dos mais belos poemas de exaltação aos valores do iluminismo, a Ode de Friedrich von Schiller.

Oh amigos mudemos de tom! Entoemos algo mais prazeroso e mais alegre!

Apesar de seu coração deprimido pela deficiência e o desencantamento com Napoleão, a alegria que Beethoven finalmente encontrara é revelada nesse grande hino dedicado à humanidade. Uma alegria libertária e condutora jubilosa das pessoas que aspiram por um porvir de eqüidades.

Se expressem irmãos em seus caminhos. Alegremente como herói diante da vitória.”

A alegria contagiante da obra-prima de Beethoven dá o tom à marcha daqueles que seguem na jornada das resistências sabendo que a construção de legados coloca em segundo plano todo pragmatismo cru e relativismo irresponsável.

Beethoven tinha consciência de sua responsabilidade política e, por que não dizer, revolucionária.

O gênio que disse também ser Rei diante de um soberano compõe o cântico retumbante e heróico de todos os reis e heróis do povo. Não há espaço para estreitezas e mediocridades, a emancipação das nações é uma bandeira a ser fincada no topo mundo.

Abraços aos milhões de seres! Beijos ao mundo inteiro!”

Preciso dos sons da Opus 125 para que o meu coração não fique empedernido com o nanismo de ideais e posturas que dá o tom aos tarefeiros subservientes, petulantes e pedantes que me cercam.

Quero continuar ouvindo esta alegre convocação ao lado de alguns poucos que ainda crêem ser possível reinventar revoluções coletivamente.

Pessoas que saibam que o herói não é necessariamente o que ganha sempre, mas sim o que sempre luta, segue, canta e espera.

Uma espera operosa, corajosa e alegre que faísque nos olhos daquele que vê ao longe o que a maioria da geração competição e dos seres business não consegue e nem quer ver.

Gente que tem no contraditório a grande ferramenta da convicção e na fraternidade o movimento prestíssimo onde o gran finali nunca acontecerá sem que todos os sons e tons sejam reconhecidos, respeitados e aplaudidos.

Marchas, paradas, caminhadas e, por que não, jornadas

Quarta-feira, Junho 20th, 2007

Na tarde de sábado pós marcha e pré marchas, assisti ao filme A Última Noite, A Prairie Home Companion, de Robert Altman, uma história para fazer-nos rir e chorar.

Como tem que ser com toda criação ou produção cultural ou não, enquanto todos os créditos subiam, a velha coceira começou a atacar, então, eu cocei, ou seja, escrevi.

Esse feriado prolongado de Corpus Christi, foi agridoce como o filme e a vida são.

Podemos dizer que a vida é uma jornada, uma marcha ou parada.

Podemos afirmar que há marcha e marchas, há vida e vidas, jornada e jornadas, pessoas diferentes e aquelas que fazem a diferença.

A eucaristia celebrada na festa Cristã Católica Romana nos aponta para a maior marcha revolucionária de todos os tempos, a Marcha pra Jesus que reuniu mais de 4 milhões de pessoas aponta para a maioria do lado alienado e manipulável da igreja evangélica brasileira (e o que é pior, boa parte não estava lá), a marcha de Itu, uma pequena faísca com mais de 400 pessoas, aponta para a verdadeira chance da igreja na busca de relevância enquanto Corpo de Cristo.

É importante pontuar que o risco do Corpo não ser discernido em sua inteireza não é prerrogativa de uma só dessas marchas cristãs.

Um feriadão com marchas de minorias com maioria heterofóbica lutando contra a homofobia, uma outra de evangélicos emergentes mobilizados por um ótimo marketing e estrutura de organização de eventos, alimentados por paranóias de perseguições da mídia e outros que não cerram fileiras com eles confundindo proclamação do evangelho e perseguição da igreja com o que há de pior e vergonhoso para a nossa história evangelical brasileira e a marcha de resistentes desarticulados que não conseguem se comunicar direito, quiçá se mobilizar.

Ainda assim, eu fico com os quatrocentos de Itu, mais precisamente os organizadores e acampantes do Fórum de Cesaréia de Filipi, a santa centelha.

Lembrei-me da velha música: “Uma centelha só, um grande fogo faz”, tomara.

A outra marcha é do meu hermanito baobá, que segue sem partir para um tempo de estudos na cidade de Reobote fundada por Isaque quando encontrou água com o toque de seu cajado nas remotas regiões dos hebreus, uma terra onde nem todos são santos e prometidos.

O Victor é aquele tipo de pessoa em extinção. Ele crê mesmo na autonomia das pessoas, respeita a dignidade e o trabalho delas e só reconhece e valoriza os projetos coletivos onde a democracia participativa seja algo a ser reinventada por todas as pessoas da cidade. Em suas convicções não encontraremos protagonista, mas sim protagonistas, o eu e o meu estão submetidos a nós e ao nosso.   

Voltando ao filme de Altman, trata-se de uma deliciosa ficção sobre o verdadeiro programa de rádio de Garrison Keillor um talentoso guardião da tradição do rádio-teatro americano. “GK”, um carrancudo impassível, cuja expressão nunca muda apresenta um show de variedades ao vivo do tipo que deixaria de existir a 50 anos, só que há um pequeno detalhe, esqueceram de dizer isso aos construtores do show.

Uma grande empresa do Texas havia comprado a rádio e iria demolir o teatro.

No final do filme descobrimos que a empresa é de evangélicos “abençoados”, o interventor da empresa interpretado por Tommy Lee Jones chega para acompanhar a última apresentação com uma frieza desumana bem característica daqueles que se converte à instituição religiosa e passam a vida toda dizendo que “aceitaram a Jesus como Salvador”.

A cena onde o interventor está em um camarote isolado é de matar. Oferecem-lhe um drink e ele pede água, só água sem gelo e limão. Pode-se notar que há mais amor de Deus no Palco do que no camarote do santarrão, há mais culto e louvor a Deus no show dos profanos do que na bolha de santidade improvisada do crente do pau oco.

Há também uma mulher-anjo que se encanta com aqueles homens e mulheres que transitavam dos bastidores ao palco e do palco aos bastidores com movimentos encantadoramente humanos.

Enquanto eu assistia a filmagem que aconteceu no Teatro Fitzgerald em Saint Paul, Minnesota de onde o programa vem sendo transmitido há 31 anos, o sol que sempre nasce para todas as pessoas e marchas, brilhava quando os sentimentos se misturavam em meu peito formando um verdadeiro mosaico que expresso neste texto.

E o que me fez pensar no fio que une todas as citações e histórias que fiz e contei é exatamente a questão da nossa natureza humana.

O que há de verdadeiro na potencialidade para o bem e o mal, na fragilidade e força, a beleza e feiúra, coerências e incoerências que habitam todo ser humano.

O ocaso se aproxima com um céu maravilhoso e daqui da terra, do chão e húmus da minha realidade eu medito o quanto preciso estar atento para os preconceitos e intolerâncias que há em mim e as crenças que me fazem olhar com ou sem amor para pessoas, marchas, paradas e jornadas.