Archive for the 'PASTORAL de mim.' Category

INVERNO, inferno e CHOCOLATES.

Sábado, Agosto 8th, 2009

NÃO TOQUE NESTA COISA! NÃO PROVE AQUELA! NÃO PEGUE NAQUELA! Todas essas proibições têm a ver com coisas que se tornam inúteis depois de usadas. São apenas regras e ensinamentos que as pessoas inventam. De fato, essas regras parecem ser sábias, ao exigirem a adoração forçada aos anjos, a falsa humildade e um modo duro de tratar o corpo. Mas tudo isso não tem nenhum valor para controlar as paixões que levam à imoralidade“. 
Apóstolo Paulo 
 

Há dias uma amiga assistiu novamente ao delicioso Chocolate dos produtores David Brown, Kit Golden e Leslie Holleran e, em seguida, me deixou um scrap honroso em meu Orkut.
 

- Acabei de assistir ao filme Chocolate e me lembrei de você….
 

Lembro-me quando em 2000 ou 2001 eu sugeri aos meus companheiros de ministério que assistíssemos ao filme. A minha intenção era provocar uma reflexão sobre a nossa espiritualidade e os seus rebotes em nossas vidas pessoais, familiares e comunitárias.
 

Entre tantas sinopses disponíveis na rede eu escolhi uma bem limitada.
 

Vianne Rocher (Juliette Binoche), uma jovem mãe solteira, e sua filha de seis anos (Victorie Thivisol) resolvem se mudar para uma cidade rural da França. Lá decide abrir uma loja de chocolates que funciona todos os dias da semana, bem em frente à igreja local, o que atrai a certeza da população de que o negócio não vá durar muito tempo. Porém, aos poucos Vianne consegue persuadir os moradores da cidade em que agora vive a desfrutar seus deliciosos produtos, transformando o ceticismo inicial em uma calorosa recepção.”
 

Este apanhado nada pega da densidade do filme onde Binoche e Alfred Molina (O Conde de Reunaud) brilham e nos encantam com as suas performances.
 

Quem não assistiu deve fazê-lo ainda neste inverno, e aqueles que degustaram essa verdadeira pregação de uma espiritualidade sadia, sugiro que se lambuze novamente com o lindo e profético Chocolate.
 
Vianne Rocher é uma extraordinária missionária, dirigida pelo Vento do Norte a cidades prisões onde existem pessoas carentes com as suas máscaras, medos, taras, violências, vícios e virtudes impostos e produzidos por uma religiosidade doentia e adoecedora.
 

A sua igreja local é a loja de chocolates e lá ela faz os discipulados e atendimentos pastorais.
 

O filme chega ao seu ápice em uma mesa farta preparada em plena Paixão de Cristo para comemorar o aniversário da velha senhora Amande Voizin (Judi Dench).
 

Carne farta regada com muito chocolate e vinho e depois uma sobremesa de muita dança e alegria no barco do bom vivan Roux (Peter Stormare).
 

Os prazeres daqueles humanos provocam a inveja doida de Carolin Claimont (Carrie-Anne Moss) uma linda viúva presa ao passado e esperançosa do despertar amoroso do Conde.
 

Os excessos heréticos daquela gente enchem de fúria o coração do Conde pudico que sem perceber inspira uma loucura.
 

As imagens feitas impuras pelos olhos tenebrosos de Serge Muscat (Peter Stromare) o fazem ouvir além das palavras ditas pelo Conde e, o “algo tem que ser feito”, transforma-se em ordem para reproduzir uma inquisição onde pessoas e coisas sucumbiriam nas chamas.
 

Ando querendo ler o livro “Feridos em Nome de Deus” da jornalista Marília de Camargo César, nele ela relata os danos do assédio espiritual cometido por líderes evangélicos. Quero saber que a que tipo de feridas ela se refere.
 

O Conde de Chocolate é um líder espiritual violentado e violentador por sua espiritualidade regrada, desumana, excludente e castradora.
 

Quantos lutos são eternizados por espiritualidades anticépticas?
 

Quantos tarados estão ateando fogo em tudo e todos por causa de uma cultura religiosa que nos afasta das nossas verdades humanas?
 

Quantos líderes bem intencionados não se transformaram em estupradores espirituais em nome de Deus e de suas quarentenas sem sentido?
 

Mas no fim do filme há algumas conversões às avessas.
 

O Conde De Reynaud, após ensaiar mais um sermão com o padreco marionete, olha pela janela e vê Caroline como nova convertida na alegria naquele característico primeiro amor olhando a vitrine da igreja, ops, da loja de chocolates ao lado da Pastora Vianne.  
 

De Reynaud corre para o altar e diante do Cristo desespera-se e em seguida entra na loja pela janela, como o salteador, salteadores nunca entram pelas portas, lembram-se?
 
Vai até a vitrine e começa a destruir tudo como se estivesse exorcizando o lugar, fazendo uma limpeza espiritual.
 
Em sua fúria – para si santa - um pedacinho de chocolate cai em seus lábios.
 
Na cena só faltou o hino Eu Venho Como Estou como fundo musical. Era a conversão do Conde, e ele nem precisou levantar a mão e sair do lugar. Não havia apelos ou apelações.
 
Em seguida ele se lambuza na graça, ops, no chocolate e entre prazer, culpa, riso e muito choro, adormece como todo humano na vitrine, empanturrado de chocolate quebrando o seu tão precioso e custoso propósito espiritual de 40 dias.
 

A vitrine é o melhor lugar para essas figuras patéticas.
 
Mas o padre, logo cedo o vê e com a ajuda da missionária chocolateira, eles o preservam tirando-o da vitrine e afirmando que ninguém saberia do ocorrido.
 
Enquanto Vianne dá ao Conde um antiácido para curar-lhe a ressaca, ela lhe garante: “Beba, isso lhe fará bem. E fique tranqüilo, não contarei nada a ninguém”.
 
E naquele domingo de páscoa o Conde ressuscitou de sua religiosidade morta e esteve na igreja como nunca esteve.
 

O Padre também se converteu e pregou um sermão tocante. Não foi o seu mais eloquente sermão, mas certamente o mais humano.
 

Preferiu falar da humanidade de Deus e afirmou que bondade cristã “Não excluir nada que nós merecemos e incluir todos que achamos não merecer nada”.
 

Aquela cidade é transformada pelo poder de Deus em contraste com as fraquezas humanas.
 
E no fim do filme, a estátua do fundador da cidade com uma bexiga vermelha pendurada ao lado pareceu estar sorrindo diante de toda aquela metanóia coletiva.
 
O filme acabou enquanto eu sorria e chorava reforçando mais uma vez o agridoce sempre presente entre nós humanos e as nossas frágeis e sensíveis vidas

EMBOLORANDO

Sexta-feira, Julho 31st, 2009


Uma amiga escreveu: “Estou mofando”.
Sem evitar ser mofador, isso terminou inspirando-me a falar sobre coisas bolorentas.
Todos sabem que a mofa é uma característica desse camarada aqui, perco quase tudo, mas não perco a piada e o sarro.
Recentemente, em um blog que registrou uma de minhas palestras para um numero considerável de jovens na capital paulista, o blogueiro limitou-se a me adjetivar como irreverente e descontraído.
Ele não está errado, não, de forma alguma, eu sou assim mesmo, mas eu me pus a pensar: “Até que ponto esse meu lado debochado pegou bolor?
Sinto-me envelhecendo e corro o risco de cometer a tolice de achar que envelhecer é sinônimo de embolorar. Acho esse pecado é quase que inevitável para os novos velhos.
Ha pouco eu vi fotos de uns 20 anos atrás e fitei-me invejoso da cabeça aos pés com uma parada importante de reflexão na região abdominal.
Também participo de muitas listas de discussão, uma delas é do EPJ – Evangélicos pela Justiça, e de repente, ao reler o que escrevi, flagrei-me com tons, exemplos e histórias de um Sênior.
Falando em sênior, estou inscrito em um time de futebol, sabe o nome, Masteranos.
Vejo os meus filhos crescendo e o tempo corre sem tréguas, hoje sou um homem de cãs.
Claro que, asseverar que mofar e envelhecer não são sinônimos, não tem a menor importância para a Geração “Y”. Generalizando, eita geraçãozinha apequenada, Deus nos livre!
Aqui e acolá o meu coração se enche de esperança ao encontrar os raríssimos jovens que realmente estão clarificados.
Essa rapazeada embolorecida estão como aquele mofo cinzento que dá no coentro e no manjericão. Almas fúngicas que adoecem quem estiver por perto, os seus frutos moles e podres são bem conhecidos.
Nada de bom se pode esperar dessa turminha esverdeada pelo propósito maior de conquistar o seu primeiro milhão de dólares até os dezoito anos e o segundo milhão de verdinhas até os vinte e cinco.
Que as exceções sejam guardadas em todos os sentidos.
Há o bolor do bem, sabiam?
O que seriam daqueles ótimos queijos e de alguns medicamentos, especialmente a penicilina, se não fosse alguns fungos abençoados e abençoadores.
Bem disse Billie Burke, Idade é algo que não importa a menos que você seja queijo.
Mas queijo vai bem com vinho.
Quanto mais bem envelhecido melhor o vinho.
Mas há que se cuidar para que os tonéis e as rolhas mal conservadas não estraguem o dulçor das uvas esmagadas e feitas em vinho.
Como o vinho, nossas vidas podem ser comprometidas por defeitos provocados por um excesso de umidade causada por bactérias.
Por isso é que eu quero envelhecer e nunca embolorar.
Outro amigo me escreveu: “Você está como o vinho bom, quanto mais velho, melhor.
Fiquei feliz por serem outros lábios a dizer isso.
Pois é isso o que realmente eu quero.
Quero unir velhos amigos em novos brindes.
Quero sorrir, não, quero gargalhar com amigos velhos segurando taças chorosas de um vinho denso conservado como um tesouro.
Um tesouro que chama corações de habitantes.
Jóias pra se ver e suspirar, irretocáveis.
Quero continuar mofando sem mofar.
Quero seguir gozando da vida sem embolorar.
Quero ser bebida boa para os meus velhos e novos amigos velhos.  
 

Brilhantismos

Quarta-feira, Julho 22nd, 2009

 

Para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
no íntimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
brilha, porque alta vive.”
 

Fernando Pessoa
 

 

Resolvi conversar com Pessoa em seu Guardador de Rebanhos e outros poemas e dessa vez usei como ponto de encontro um exemplar de capa vermelha do Circulo do Livro que traz uma seleção e introdução de Massaud Moisés.
Folheando o livro entre os heterônimos Alberto Caieiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, em companhia de Reis eu pude aquietar-me diante de um lago a olhar a minha lua.
Há 40 anos os homens levaram o Saturno 5 à lua, além das conversas entre os idosos, as matérias jornalísticas deram conta de todas as informações e curiosidades da Missão Apollo-11.
Alguns acham que isso não aconteceu, na verdade, há muitos que nada sabem sobre corridas espaciais e vivem muito bem.
Mas sobre a Lua, bem, sobre ela dificilmente alguém não saiba alguma coisa.
Quando Neil Amstrong disse “Aqui base da Tranqüilidade. A Águia pousou” eu estava com seis anos e há uns sete anos atrás eu ganhei esse livro com o Pessoa, eram tempos difíceis onde a minha alma intranqüila não encontrava pouso.
Ao folhear as páginas encontrei uma cartinha da pessoa que me tentou pastorear e guardar a minha alma de ovelha assustada e inquieta.
Ganhei esse livro de uma ovelha pastora que procurou me apascentar guando o meu pai entrara na UTI para depois seguir para outros prados para muito além de luas e sóis.
Eu sempre gostei da Lua no Inverno, ela parece mais prateada, mais contrastante, maior, sei lá, mais lua.
Tenho olhado muito para ela nesse inverno, ela tem ajudado especialmente a iluminar algumas de minhas noites.
As noites são mais escuras quando algumas coisas em nossas vidas mínguam e crescem. Essa dinâmica é inevitável, só há crescentes com minguantes e minguantes com crescentes. Minguar e Crescer, ambos doe.
O anseio por uma vida nova por vezes nos faz esquecer os minguantes e crescentes intermediários. Não há nova sem minguantes e crescentes.
O busca de uma vida cheia às vezes nos faz tentar ignorar os crescentes e minguantes. Não existem cheias sem crescentes e minguantes.
Pessoa nos chama ao redil sob a lua clara para uma vida brilhante.
Vida brilhante é aquela que desce e é vista em todo lago. Por isso que a lua aqui muda lagos por mais escuras que sejam as suas águas.
Ser brilhante, grande, relevante é ser inteiro. Sem os exageros da megalomania e sem as exclusões de uma auto-estima apequenada.
Essa maneira de SER nos leva a um alto FAZER. Um fazer intenso e profundo. Um fazer que lança luz e legado às futuras gerações.
Às vezes nós precisaremos ir à lua para que o nosso todo reflita em todos.
E a lua só pode vir a todos lagos e brilhar em todos os campos se ela toda estiver bem alta e o momento em que ela fica bem alta é quando a noite é mais noite e a escuridão mais escura.
Eis uma metáfora boa para repensarmos os brilhantes e brilhantismos que nos cercam e perseguimos.

Aos meus AMIGOS!

Segunda-feira, Julho 20th, 2009

 

Sabrina escolheu a foto do meu melhor amigo e colocou-a em sua estante.
Hoje pela manhã, beijei o meu filho e disse sem lembrar-se de nada referente ao dia do amigo, que ele era o melhor amigo que eu tinha, ele sorriu, beijou-me e disse:
- Eu te amo papai!
Quando o meu papai morreu eu estava ao lado de outra importante amiga que sem ela o amigo Vinicius jamais existiria.
Eu estava ao lado da Simone quando recebi a noticia de que meu velho papai, o Zezinho, o Juruna da ferramentaria, petista roxo, não resistira e morreria há poucos minutos depois.  
A dor de perder um amigo pai ou um Pai amigo é realmente insuportável.
Nós teremos muitos amigos que serão nossos pais e mães enquanto vivermos.
O tipo de pai que nem de longe cheira a paternalismos viciosos.
O tipo de mãe que nem há quilômetros nos acena com qualquer insinuação edipiana.
Aprendi com o tempo que amigo não é somente aquele que nos traz boas noticias, mas principalmente o único capaz de nos trazer as piores das noticias.
Amigo de fato é aquele que está perto em nossos piores momentos.
Tenho amigos que estiveram próximos, muito perto a léguas de distancias.
Quando estavam preparando o corpo de meu pai para as exéquias, um amigo sempre perto, outro Zé, não permitiu que eu estivesse perto enquanto arrumavam o corpo do meu velho no caixão.
Um amigo perto que me manteve distante do meu pai amigo, o Zé que por amar sem limites o amigo e respeitar a dor da perda me preservou e cuidou de minha alma e memórias.
Hoje, um amigo comemorou o Dia do Amigo como portador de uma péssima notícia.
Ouvi, sofri, temi e disse:
- Só um amigo poderia trazer uma notícia como essa.
Tenho amigos que pagaram as minhas contas de luz e outras contas impossíveis de pagar, amigas que me garantiram da berinjela ao arroz na dispensa nossa de cada dia.
Tenho amigos que sempre me reverenciaram até mesmo quando a sensação de leproso era a única coisa que me restara desde Dezembro de 2003.
Tenho amigas que, corajosamente, nunca temeram apontar as minhas fugas e ódios não assumidos.
Hoje, o amigo das más notícias, disse;
- Poderíamos organizar uma espécie de AAA. (a Associação dos Amigos Anônimos)
Referindo-se á mensagem do meu também amigo e pastor que pregou ontem à noite, ele emendou:
- Nós fomos chamados para sermos pescadores de homens do jeito que o Ed falou ontem.
Poderíamos pensar em um grupo de amigos, como o grupo que hoje jogará sinuca, para juntos irmos além e pensarmos em pelo menos uma vez por mês estarmos resgatando (ou promovendo o resgate) da dignidade de uma pessoa conhecida ou não, um futuro ou não amigo.
Achei lindo!
Entendi como mais um exemplo da máxima do exemplo do Mestre de Nazaré.
Ontem, quando retornava de Sampa, a minha amiga tocou a minha mão e perguntou;
- Você está bem Lewi´s?  (ela me chama de Levis)
Respondi em tom de fuga:
- Só estou cansado meu amor.
Alguns minutos depois, ela insistiu apertando a minha mão enquanto ouvíamos Jorge Camargo, Nelson Bomilcar, Jorge Rheder, Guilherme Kerr e outros;
- Meu bem, tudo bem mesmo?
Respondi como mentiroso;
- Sim, só estou cansado meu amor.
Isso daria mais um livro, diria Ela.
É verdade.
Mas………
Hoje eu só quero agradecer aos meus amigos – pouquíssimos – aqui e fora do país:
- Valeu amigos preciosos! De coração, valeu SEMPRE!

Acordar no Buraco

Quarta-feira, Julho 15th, 2009

 

Desde ontem eu estou intrigado com a situação vexatória de um bêbado que no sábado passado ficou entalado em um bueiro numa cidade do oeste da Alemanha.
Há uma música que diz algo parecido com beber, cair e levantar, não foi exatamente o caso do senhor, que mesmo se esforçando, não conseguiu levantar-se, precisou da ajuda dos bombeiros.
A matéria, com a foto do pobre entupidor, revela que alguém o viu adormecido assentado com as pernas para dentro do buraco.
Poderíamos até questionar se alguém o empurrou ou se ele mesmo se jogou ou escorregou, mas o fato é que o homem quando acordou viu-se entalado no buraco.
Ontem conversando com um amigo eu disse que pessoas que estão passando pelo purgatório, jamais virão procurar conversar comigo, somente quem aqueles que estão no fundo do poço do inferno sabem que podem trocar idéias comigo.
Justifiquei afirmando que lá, no inferno, há uma grande pedra onde alguns rabiscam pequenas mensagens e é fácil ler a minha que diz: “O Levi passou por aqui”.
Franz Kafka em seu livro metamorfose nos fala de um homem que ao acordar percebeu que tinha se transformado num inseto: “Quando Gregor Samsa despertou uma manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso inseto“.
Kafka é genial em suas obras que estão mostram os seres humanos desesperados diante da aberração que é a vida e em constantes pesadelos cheios de culpa em um mundo de impessoalidades e friezas.
No caso do homem e inseto Gregor, a sua metamorfose desencadeia outras e o seu despertar bizarro traz revelações e transformações em seus relacionamentos, vale a pena conferir.
Voltando ao nosso alemão entalado e usando sua vergonhosa situação como metáfora, certamente não foi só a bebida que o levou literalmente ao buraco, não temos informações suficientes para sequer afirmar que ele é um alcoólatra.
Conjecturas à parte, eu não sei se existe um verdadeiro despertar fora dos buracos da vida.
E há buracos que não conseguimos sair sozinhos e seremos tolos se contarmos com aqueles que testemunharam e nada fizeram para impedir que caíssemos em nossos abismos pessoais.
Devemos também saber que muitos irão passar e nos fotografar em nossa vergonha e espalhar por todos os lados a nossa desgraça.
Mas o importante aqui é acordar, despertar, deixar a ficha cair e sair do buraco e seguir na jornada, mais atentos com os entorpecentes e buracos e sem tanta expectativa e exigências com as pessoas, pois afinal, todos nós vivemos em um mundo imperfeito, cheio de pessoas e relacionamentos imperfeitos.    

CHEIO

Terça-feira, Maio 5th, 2009

Cheio do Espírito Santo
Por Levi Araújo
 Tem um ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho”. Rubem Braga
 

Encher-se de algo, alguém ou algum lugar é absolutamente humano.
E o que não faltam na vida são situações, circunstancias, locais e pessoas profundamente desconfortáveis e desagradáveis.
Em casos similares a melhor coisa a fazer é voar para bem longe como aconselha o poeta: “voai, voai, voai, voai passarinho, voai”.
Até porque, parafraseando outro gênio da literatura: “alguns passarão e outros passarinho.”
Mas, por outro lado, como é bom ficar encharcado de leveza após alguns encontros cheios de emoções, vida e acolhimento.
Saciar-se de gestos e palavras de carinho de quem lhe quer bem é algo renovador e uma santa catarse.
Ontem eu voltei cheio de tudo de bom do Estado do Espírito Santo.
Em minha rápida passagem por Vitória e na Praia do Canto eu pude olhar para olhos marejados e sorrisos graciosos e falar para ouvidos atentos e corações acolhedores.
Alguns dos muitos amigos amados daquele estado me fizeram confirmar mais uma vez que os marcos divinos em histórias pessoais jamais podem ser apagados e esquecidos.
Eu voltei cheio do Espírito Santo porque reencontrei parte dos meus queridos, retornei novamente saciado de mais um estado que faz parte da minha história pessoal e ministerial.
Agradeço emocionado ao nosso Deus e à juventude e liderança da Igreja Batista da Praia do Canto. Valeu!
Encerro oferecendo a vocês uma crônica do maravilhoso romancista, cronista, tradutor e jornalista capixaba, o poeta Rubem Braga.
Ah, só para constar…, entre condes e Passarinhos eu também fico com os passarinhos.
 O CONDE e o PASSARINHO – Rubem Braga
 
Acontece que o Conde Matarazzo estava passeando pelo parque. O Conde Matarazzo é um Conde muito velho, que tem muitas fábricas. Tem também muitas honras. Uma delas consiste em uma preciosa medalhinha de ouro que o Conde exibia à lapela, amarrada a uma fitinha. Era uma condecoração (sem trocadilho).
Ora, aconteceu também um passarinho. No parque havia um passarinho. E esses dois personagens - o Conde e o passarinho - foram os únicos da singular história narrada pelo Diário de São Paulo.
Devo confessar preliminarmente que, entre um Conde e um passarinho, prefiro um passarinho. Torço pelo passarinho. Não é por nada. Nem sei mesmo explicar essa preferência. Afinal de contas, um passarinho canta e voa. O Conde não sabe gorjear nem voar. O Conde gorjeia com apitos de usinas, barulheiras enormes, de fábricas espalhadas pelo Brasil, vozes dos operários, dos teares, das máquinas de aço e de carne que trabalham para o Conde. O Conde gorjeia com o dinheiro que entra e sai de seus cofres, o Conde é um industrial, e o Conde é Conde porque é industrial. O passarinho não é industrial, não é Conde, não tem fábricas. Tem um ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho.
Eu quisera ser um passarinho. Não, um passarinho, não. Uma ave maior, mais triste. Eu quisera ser um urubu.
Entretanto, eu não quisera ser Conde. A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser Conde. Não amo os Condes. Também não amo os industriais. Que eu amo? Pierina e pouco mais. Pierina e a vida, duas coisas que se confundem hoje, e amanhã mais se confundirão na morte.
Entendo por vida o fato de um homem viver fumando nos três primeiros bancos e falando ao motorneiro. Ainda ontem ou anteontem assim escrevi. O essencial é falar ao motorneiro. O povo deve falar ao motorneiro. Se o motorneiro se fizer de surdo, o povo deve puxar a aba do paletó do motorneiro. Em geral, nessas circunstâncias, o motorneiro dá um coice. Então o povo deve agarrar o motorneiro, apoderar-se da manivela, colocar o bonde a nove pontos, cortar o motorneiro em pedacinhos e comê-lo com farofa.
Quando eu era calouro de Direito, aconteceu que uma turma de calouros assaltou um bonde. Foi um assalto imortal. Marcamos no relógio quanto nos deu na cabeça, e declaramos que a passagem era grátis. O motorneiro e o condutor perderam, rápida e violentamente, o exercício de suas funções. Perderam também os bonés. Os bonés eram os símbolos do poder.
Desde aquele momento perdi o respeito por todos os motorneiros e condutores. Aquilo foi apenas uma boa molecagem. Paciência. A vida também é uma imensa molecagem. Molecagem podre. Quando poderás ser um urubu, meu velho Rubem?
Mas voltemos ao Conde e ao passarinho. Ora, o Conde estava passeando e veio o passarinho. O Conde desejou ser que nem o seu patrício, o outro Francisco, o Francisco da Umbria, para conversar com o passarinho. Mas não era aquele, o São Francisco de Assis, era apenas o Conde Francisco Matarazzo. Porém, ficou encantado ao reparar que o passarinho voava para ele. O Conde ergueu as mãos, feito uma criança, feito um santo. Mas não eram mãos de criança nem de santo, eram mãos de Conde industrial. O passarinho desviou e se dirigiu firme para o peito do Conde. Ia bicar seu coração? Não, ele não era um bicho grande de bico forte, não era, por exemplo, um urubu, era apenas um passarinho. Bicou a fitinha, puxou, saiu voando com a fitinha e com a medalha.
O Conde ficou muito aborrecido, achou muita graça. Ora essa! Que passarinho mais esquisito!
Isso foi o que o Diário de São Paulo contou. O passarinho, a esta hora assim, está voando, com a medalhinha no bico. Em que peito a colocareis, irmão passarinho? Voai, voai, voai por entre as chaminés do Conde, varando as fábricas do Conde, sobre as máquinas de carne que trabalham para o Conde, voai, voai, voai, voai, passarinho, voai.

MARABÁ

Quarta-feira, Abril 8th, 2009

E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem as direi?”
Gonçalves Dias
A minha história com o Estado do Pará começa em 1997 quando estive falando aos jovens Batistas Brasileiros no Encontro Nacional denominado Despertar.
No ano de 2000 eu estive em Tucuruí em um Congresso Estadual da Juventude do Pará em um tempo precioso de aproximação dos meus amigos queridos Jorge Camargo, Sérgio Dusilek e Fátima.
No ano seguinte eu recebi o convite para uma série de conferências na cidade de Marabá e não podendo ir eu indiquei como preletor o Olavo, meu amigo e parceiro de visão.
Foi assim que começou a história do Olavo, Débora e Lidia e a cidade de Marabá.
Sexta-feira (03/04) eu desci do avião com o coração cheio de saudades e expectativas e a mente trazendo lembranças saudosas da primeira vez que tomei tacacá com tucupi.
Abracei demoradamente os meus amigos e senti que o meu coração e os meus olhos seriam refeitos e marejados após alguns anos de distancia. Distancia somente física, diga-se de passagem.
Tive o privilégio de compartilhar a Palavra, experiências e alma com a liderança e membros da Igreja Batista Bíblica e com os pastores do Sudeste do Pará, talvez futuro Estado dos Carajás.
Na segunda e terça (6 e 7/04) o Olavo me levou para olhar, sentir, admirar e chorar Marabá.
Foi revigorante ouvir o Olavo dando aquela aula sobre a sua nova terra. E quem conhece o meu amigo sabe que ele é detalhista, estudioso e bem atualizado.
Na manhã de sábado, após um tempo onde pude escancarar o meu coração com os pastores, debaixo de muita emoção, nós oramos juntos em duplas.
Um jovem pastor se aproximou, sentou-se ao meu lado, e após a oração, enquanto tentávamos falar alguma coisa em meio ao choro, ele disse com muita dificuldade: “O nome do meu filho é em sua homenagem”.
Ele e a sua esposa foram especialmente tocados por Deus e chamados ao ministério pastoral quando preguei naquele Congresso em Tucuruí.
Antes de um abraço final, em lágrimas, o pastor Luciano disse: O Senhor continua sendo uma referencia para mim e para a minha esposa.
E em seguida eu mandei um beijo carinhoso e especial para o Levizinho, porque o velho Levi aqui já tinha recebido o beijo e o carinho d’Aquele que sabe muito bem que eu precisava muito ouvir aquilo naquele momento.
Estou em minha terra e ainda ouço as palavras do Olavo e o coração da Débora me chamando de amigo.
Como você percebeu, eu precisava de Marabá.

O OUTONO

Quarta-feira, Março 25th, 2009

Estou começando a gostar do outono.
As preferências pelas estações do ano são explicadas de várias maneiras e por muitas razões, algumas mais consistentes e outras não.
Há quem não goste do inverno e prefira o verão por preferir o calor ao frio. Ou como algumas crianças que não gostam do outono por preferirem o verão das férias. Ou ainda, há quem deteste o inverno como o Gigante Egoísta do conto de Oscar Wilde, aquele que por causa do seu muro de egoísmo, fez com que fosse sempre um inverno em seu jardim enquanto as estações desfilavam na companhia das crianças por ele banidas do lado de lá de sua muralha fria.
Nessa história, o Gigante após aprender que sem crianças não há primavera, ele passou a “não odiar mais o inverno, pois sabia que era apenas a Primavera adormecida e que as flores estavam descansando”.
Eis o grande segredo para se gostar de cada uma das estações, acreditar que elas estão umas nas outras anunciando o quanto a anterior foi bela e a próxima também o será.
É tolice tentar eternizar uma estação, isso é ir contra o ciclo natural da vida.
Sexta-Feira passada eu acordei bem cedo para me despedir do último sol de verão que alvorecia trazendo os novos tons outonais.
Fiquei olhando para ele enquanto as crianças e outras coisas despertavam em minha vida.
Sabe de uma coisa? Eu nunca me considerei um camarada contemplativo. Perdi muitas oportunidades e me lembro do prazer que tive quando me presenteei com esses momentos.
Também não era de prestar a atenção nas estações do ano; quanto desperdício……
No Brasil abaixo do equador, os meteorologistas afirmam que clima de outono mesmo só no final de abril, com as quaresmeiras e acácias dominando em algumas regiões do país e as noites mais longas com madrugadas e manhãs com temperaturas baixas.
Então, considerando as diferenças dos outonos boreais, austrais e se posso dizer equatoriais, há algumas características que são emblemáticas e comuns para todas as pessoas e lugares e eu só quero me ater a uma delas ao encerrar essas linhas.
As folhas mudam de cor e caem.
Li uma vez que um homem que chega aos cinquenta anos e diz que continua pensando igual aos vinte anos terminou perdendo trinta anos de sua vida.
Custamos a entender que os nossos tempos verdejantes, vigorosos e resistentes aos ventos e tempestades de verão eram para nos prepararem para um novo tom feito ouro refinado e um novo movimento de desapego e leveza naquelas folhas tão agarradas aos galhos.
No outono aprendemos que cair não é decadência, mas sim uma oportunidade de transcendência e despertar.
As folhas caem juntas na terra como se buscassem as raízes.
Com o tempo, barro e folhas misturados pelos pés ou patas trarão um novo húmus que tocarão as raízes.
E assim, as folhas escondidas nas raízes serão acolhidas pelo inverno que nos convidará ao recolhimento necessário até que a primavera inaugure mais um ciclo de uma vida que é bela e significativa em toda e qualquer estação ou situação.

I Can’t Get No

Domingo, Março 8th, 2009

À luz do antropólogo francês René Girard, um dos meus preferidos preletores falou o quanto somos seres desejantes e cobiçosos.
Girard é considerado um dos raros “antropólogos da religião”, foi ele quem desenvolveu a tese do desejo mimético que é uma explicação global do conflito em nossas sociedades, baseada na análise do papel central do bode expiatório.
Em uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo em outubro de 1999, René Girard revela o seu ponto de partida reflexivo dizendo que “o ato fundamental da sociedade primitiva, que está na origem da nossa, é designar uma vítima, um bode expiatório, e cultivar a ilusão de sua culpabilidade para permitir a expulsão de todas as espécies de tensão coletiva. Essa ilusão é, em seguida, fundadora dos ritos, que a perpetuam no tempo e conservam formas culturais que acabam nas instituições”.
Girard ensina que o comportamento mimético, no estágio coletivo, é resultado do desejo mimético, que nasce no estágio individual.
Diz ainda que o Décimo Mandamento da Lei Mosaica – não cobiçarás – se sobressai entre os que o precede: “Esse último mandamento é freqüentemente negligenciado, embora seja extremamente importante, na medida em que visa, justamente, ao mais banal dos desejos, o mais comum e, na aparência, o mais anódino. Já que esse desejo é o mais comum de todos, o que ocorreria se, em vez de ser proibido, fosse tolerado e até encorajado? A resposta vem por si: a guerra seria perpétua entre todos os grupos humanos. Acredita-se que o desejo é objetivo ou subjetivo, mas na realidade, ele reside num outro que valoriza os objetos, o mais próximo, o próximo. Para manter a paz entre os homens, é necessário definir a proibição em função dessa terrível constatação: o próximo é o modelo dos nossos desejos”.
O monge beneditino Anselm Grün diz que “só há uma coisa que não conseguimos falsificar: o desejo. Pois um desejo não é possível de a pessoa manipular. A pessoa humana é seu desejo. O desejo é realmente a qualidade mais honesta em todas as pessoas”.
Grün se baseia no pensamento do filósofo Ernest Bloch que diz: “Descobri em minha vida que o desejo é a única qualidade honesta do ser humano”.
Em outro momento, Grün cita o clássico dos Rolling Stones I can’t get no satisfaction, e o faz para ilustrar a angustia desses seres cobiçosos em que nos transformamos.
Enquanto escrevo essas linhas eu ouço o grito da alma cantado por Mick Jagger sob os acordes da velha e boa banda e canto a musica pensando em nós, seres sedentos.
Sim, somos seres insaciáveis.
Não conseguimos nos satisfazer, não, não conseguimos.
Tentamos e tentamos, mas não conseguimos, sim não conseguimos.
Ouvimos no rádio de nossos carros informações inuteis que pôe fogo em nossas imaginações, ao virmos tv, pensam nos convencer que aquela camiseta e aquele cigarro podem nos transformam em O CARA ou A CARA na CARAS.
Andamos ao redor do mundo fazendo isso e assinando aquilo, e pensando que seremos melhores porque nós temos garotas para transar e marcas que não podemos perder.
Poderiamos arriscar algumas novas estrofes para atualizarmos essa jóia maravilhosa a segunda entre as 500 músicas de sempre, mas isso é desnecessário pois ainda somos seres sedentos e o nosso modo de ser sociedade consumista só inovou um pouco a velha apelação à cobiça.
Encerro relembrando aquele encontro entre Jesus e a Mulher Samaritana no poço de Jacó.
“Chegou, pois, a uma cidade samaritana, chamada Sicar, perto das terras que Jacó dera a seu filho José.
Estava ali a fonte de Jacó. Cansado da viagem, assentara-se Jesus junto à fonte, por volta da hora sexta.
Nisto, veio uma mulher samaritana tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. Pois seus discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos.
Então, lhe disse a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana (porque os judeus não se dão com os samaritanos)?
Replicou-lhe Jesus: Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.
Respondeu-lhe ela: Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva?
És tu, porventura, maior do que Jacó, o nosso pai, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu, e, bem assim, seus filhos, e seu gado?
Afirmou-lhe Jesus: Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.
Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la”.
Procure uma Bíblia e leia o capítulo 4 do Evangelho de João e confira toda a história, vale a pena.

As mudanças dependem daquilo que nunca muda

Terça-feira, Fevereiro 10th, 2009

“As pessoas não conseguem conviver com mudanças se não tiverem um núcleo imutável dentro de si. O segredo da capacidade de mudar está na visão imutável de quem você é, do que você deseja e de quais são os seus valores”.
STHEPEN R. COVEY

Mudanças incomodam, irritam, desconfortam e preocupam.
A maioria das pessoas não consegue conviver com elas e é por isso que são poucos aqueles que sobrevivem e depois vivem sob os auspícios delas.
Quando o assunto é mudança, nós precisamos rigorosamente de um ter que define um ser.
Não falo de um ter por ter, mas falo de um ter que diz quem somos.
Um ter que define liga, lastro e essência.
Esse ter traz sobrevivência em meio a crises e turbulências, só esse.
As crises não resistem àqueles que têm imutabilidades dentro de si.
Quando as imutabilidades habitam o coração de um ser as mudanças são inevitáveis.
Gente assim é capaz de mudar e provocar mudanças.
Gente assim é capaz de sacudir o mundo.
Por isso camarada, tente, tente outra vez.