Participação Cidadã - (3a. parte)
23/12/08Participação Cidadã (3ª. parte)
Por Levi Araújo
[A terceira parte de uma edição do texto que escrevi para o LIVRO NOSSO SÉCULO XXI, sob o título “XÔ, APATIA! VAMOS FAZER A REVOLUÇÃO CIDADÃ!” ]
Fernando Pessoa, ao falar sobre o provincianismo, retrata com exatidão o cenário dos desertores dos ideários humanistas que devemos evitar. Assim disse o poeta: “O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte do desenvolvimento superior dela, em segui-la, pois, mimeticamente com uma insubordinação inconsciente e feliz”.
Essa insubordinação inconsciente e feliz me faz lembrar a música Admirável Gado Novo, que nos transporta criticamente para uma vida de gado onde o povo é marcado e feliz. Essa felicidade doentia e que adoece, nos leva ao status de seres normóticos. A normose dos cidadãos nos leva a um catatonismo social que por sua vez produz um marasmo perigoso no campo da atuação cidadã.
Pierre Weil considera como normose “..o conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir aprovados por um consenso ou pela maioria de determinada população e que levam a sofrimentos, doenças ou mortes, em outras palavras, que são patogênicas ou letais, e são executados sem que seus atores tenham consciência dessa natureza patológica, isto é, são de natureza inconsciente”.
O problema agrava-se mais ainda quando esse tipo de ética anticidadã é reforçada por alguns importantes atores formadores de opinião, com ou sem responsabilidades constitucionais, absortos em projetos pessoais e corporativistas. Na verdade, esses estelionatários da cidadania nada ou pouco fazem para mudar “o conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir aprovados por um consenso ou pela maioria” que são nocivos á saúde dos cidadãos. Pior, os estelionatários da cidadania terminam usando dos mesmos expedientes para se perpetuarem no poder e em seus guetos de celebridades.
Não estaria o nosso ativismo cidadão precisando de um divã ou de um prozac para um tratamento longo e bem feito até que uma metanóia sana nos faça trocar os otimismos das anfetaminas mal receitadas por uma esperança consistente de mentes e corações autônomos e protagonistas que seguirão atuando no presente sem medo do futuro?
Sem um auscultar e um olhar novo e esperançoso, só nos restará a apatia dos seres sem paixão, nos quais a coisa-minha está infinitamente acima da coisa pública. Esse nosso hedonismo ególatra nos afastará da verdadeira ética que, como diz Umberto Eco, depende da presença do outro para que exista. O que predomina é o sentimento de que a política é coisa para profissionais e a nós, pobres cidadãos, restam as obrigações de pagar impostos exorbitantes e eleger governantes.
Impassíveis, nós não conseguimos – nem desejamos – pensar em exercer cidadania de fato e de direito antes, durante e depois dos pleitos eleitorais. Esse danoso senso comum é alimentado pelas lupas de uma mídia ávida por escândalos, que reforça a sensação de que nada irá mudar. Com isso, terminamos assumindo uma indolência política. Assim, o desinteresse pela coisa comum termina impedindo o surgimento de novos quadros técnicos e políticos.
Como diz nossa poeta maior de Santo André, Dalila Teles Veras, nós precisamos auscultar a cidade. Precisamos de novos espaços – ou de mudar os auscultadores dos espaços existentes -, onde o coração e voz do cidadão sejam ouvidos e o sentimento de pertencimento à cidade e à comunidade seja mensurado.
Além de um novo ouvir, carecemos de um novo olhar, uma cultura do olhar cidadão, um saber que dialogue com todos os olhares da nossa complexa e rica rede de atores sociais. Uma convivência disposta não só a ouvir, mas a olhar e entender as histórias e valores das pessoas, dos grupos e movimentos sociais que interagem em nossa praça comum.
A redenção plena de num novo jeito de ver as pessoas e cidades, um olhar que busque a identificação e a encarnação do outro e no outro. Olhares mais respeitosos e inclusivos, olhares menos individualistas que reflitam a busca perseverante de horizontes ideais em mirantes mais nobres. Este ensaio à visão revelará algumas cegueiras pessoais, institucionais e sociais e nos fará rever algumas coisas e confirmar outras em nossa busca comum do bem coletivo.
A cura de nossa surdez e cegueira cidadã nos levará à rebelião necessária contra essa normose e apatia que grassam em nossa região. Insurreição que nos levará a uma nova cultura política definidora de uma dinâmica saudável para a ação protagonista do cidadão ao pensar e fazer política nas cidades e na participação direta dos processos de disputa e ocupação dos espaços de poder.
Levi Corrêa de Araújo é presidente estadual da AEVB - Aliança Evangélica Brasileira.