Cidade Pirelli implode e se torna especulação imobiliária

5/03/10

A bem da verdade e para que não se compre gato por lebre, o resumo da ópera é o seguinte: o projeto Cidade Pirelli, lançado há mais de uma década em Santo André, tornou-se retumbante fracasso. O PT é um dos responsáveis, mas o que se anuncia agora no governo petebista de Aidan Ravin não passa de especulação imobiliária. Teremos a substituição de um espaço planejado por um fatiamento catastrófico de planejamento urbano.

Entretanto, como tudo é possível, principalmente na atividade imobiliária, a mais criativa maneira de ganhar e de perder dinheiro, não deve ser descartada a possibilidade de que a emenda fique melhor do que o soneto quando se observar o resultado final apenas sob ângulo econômico-financeiro. Mesmo assim, a realidade dos fatos não pode ser subjugada por interesses individuais e corporativos, quando não políticos e partidários. A morte da Cidade Pirelli e o lançamento de um projeto imobiliário ao gosto dos especuladores retratam esse Grande ABC desprovido de capital social. (leia mais…)

Grande Campinas cresce em ritmo 39% superior ao Grande ABC

24/02/10

A raia do PIB (Produto Interno Bruto) em que o Grande ABC sofre duros revezes para a Grande Campinas, como antecipei no texto Grande ABC versus Grande Campinas, quem está na frente? é insofismável prova de que os sete municípios da região que somam 2,65 milhões de habitantes encontram-se encalacrados frente aos 19 municípios do Interior de população semelhante.

Ou seja: o G7 (o Grande ABC) está perdendo cada vez mais terreno para o G19 (a Grande Campinas). Nos oito anos contados entre janeiro de 2000 e dezembro de 2007, o crescimento médio anual do PIB do Grande ABC foi de 1,53%, contra 2,53% da Grande Campinas. A velocidade de avanço do G19 é 39% superior a da região.

Tracem uma linha de tempo mais prolongada e projetem o quanto o Grande ABC se distanciará da Grande Campinas em duas décadas. Não se trata de perspectiva pessimista. (leia mais…)

Vicentinho e Morando expõem linguagem da disputa eleitoral

8/02/10

O deputado federal petista Vicentinho Paulo da Silva e o deputado estadual tucano Orlando Morando foram envolvidos outro dia num trabalho jornalístico que sintetiza estes tempos pré-eleitorais. Representantes dos dois partidos que chefiam instâncias mais poderosas do País — o governo federal e o governo do Estado de São Paulo — Vicentinho e Morando revelaram o quanto os tempos mudaram. Ao tratarem das próximas eleições presidenciais, mostraram com sinais trocados perfis estereotipados de petistas e tucanos. Vicentinho, ex-sindicalista, transparece diplomacia e tranquilidade. Orlando Morando, empresário do ramo de supermercados, sugere pedras na mão. (leia mais…)

Revitalização com novos conceitos

5/02/08

Por Fabio Vital

Fazer uma reflexão a respeito do século XXI não é tarefa das mais árduas. O século que se encerrou com Internet, biotecnologia e globalização é o mesmo que aprofundou o abismo entre ricos e pobres, entre os que possuem as patentes e aqueles que pagam por seu uso. Evoluímos? Depende do ponto de vista. Necessidades básicas como suprimento de água potável, energia e erradicação de doenças contagiosas como dengue, tuberculose e sarampo nos reportam ao século XIX.

Leia o texto na íntegra no site da LivreMercado. 

Divagações sobre um futuro possível

1/02/08

Por Rafael Guelta

Bom dia, sr. Globe. Hoje está um bom dia para prosear. Proponho que façamos um laboratório. Como fazem atores de teatro ao investigar a personalidade de seus personagens; músicos ao dissecar o silêncio em novas harmonias; artistas plásticos ao juntar cores, formas e signos a novos conteúdos de imagens; ou cientistas ao experimentar reações da química e das forças da natureza. Enquanto divago e escrevo, o senhor responde com sua consciência. Escreva tudo o que lhe vier à cabeça e depois me envie por e-mail. Por mais que esta correspondência soe uníssona porque sou eu que escrevo — e a palavra é o bem maior desta prosa –, discorde, proponha, reinvente. Não aceite o que irei dizer. Desconfie. Ninguém é perfeito, tampouco dono da verdade. Preciso das suas idéias tanto quanto o senhor das minhas. Somos mamíferos e mamamos uns nos outros, não é mesmo?

Leia o texto na íntegra no site da LivreMercado.

Passado ajuda a construir o futuro

10/01/08

Ademir Medici

Grande ABC aí está para ser decifrado. Vive uma curva descendente? Sobreviverá apenas se sofrer amplas reformas urbanísticas, ambientais, políticas e administrativas? Perdeu o bonde da história por erro deste ou daquele administrador, deste ou daquele sistema político e econômico? Não tem identidade?

Há várias respostas. Mas nenhuma terá eficácia se for dada de supetão. Analisar o presente e jogar a responsabilidade pelas distorções existentes neste ou naquele personagem, nesta ou naquela postura filosófica ou ideológica, é uma tarefa simplista.

Também não se pode querer resolver os problemas que se apresentam e esquematizar um planejamento racional a curto, médio e longo prazos a partir de fórmulas mirabolantes deste ou daquele urbanista ou cientista social que aparece como salvador de todos os males que a população enfrenta nestes tempos de refluxo industrial e transformações econômicas. Nem é possível pensar, meramente, em modelos que deram resultados satisfatórios em outras paragens. Mais do que nunca é preciso buscar respostas e inspiração na história local.

O Grande ABC tem uma história fascinante e constrói, com muitas dificuldades, a sua memória. De qualquer forma, se é verdade que notícias de época oferecem pistas de falhas, erros e caminhos mal percorridos, é possível encontrar também atos de resistência, idealismo, vontade de construir uma sociedade justa, digna e, em especial, independente por parte dos nossos antepassados. A eles devem ser creditados, entre tantos, dois pontos básicos:

1º) Nesse emaranhado de descaminhos que o Brasil vive, o Grande ABC soube conquistar um espaço importante e moderno — afirmação óbvia mas, no mais das vezes, ignorada pelos novos salvadores da pátria.

2º) A riqueza maior da região, a sua tecnologia industrial, pode ser reivindicada pela plataforma deste ou daquele organismo federal ou particular e, até mesmo, internacional. Mas somente a sociedade local tornou possível virar o jogo, oferecer condições para que aqui fosse criado um parque industrial modelar em todas as áreas — e que vai se esgarçando.

Poderiam ser citados outros pontos. Geralmente o são. Mas basta os dois acima para se compreender como a região tem avançado sem olhar para trás.

Leia o texto na íntegra no site da LivreMercado.

Novos prefeitos precisam ter a harmonia de boa orquestra

10/08/07

Edição Especial Histórica
Janeiro de 1997

DANIEL LIMA

Os prefeitos que assumem neste mês a gestão de 48 meses nos Municípios do Grande ABC só não conhecem o fardo de responsabilidade que os espera se estiverem no mundo da lua. O quadro socioeconômico regional não permite mais improvisações, sob pena de agravarem-se os indicadores de precarização da qualidade de vida. Resta saber se, embora pressupostamente conhecedores da situação regional, esse grupo vai reunir apetrechos técnico-operacionais para interpretar sem teimosia e personalismo uma canção que exige a harmonia de uma orquestra, ou se vai mesmo fantasiar-se administrativamente com os farrapos do Exército de Brancaleone. Embora tenham surpreendido os mais ajuizados, ao se apresentarem em bloco, antes da posse oficial, para fotografias, o passado do Consórcio Intermunicipal recomenda cautela. A unidade numa foto é tão consistente quanto a realidade do Mortal Combat em game.

Esse bloco de prefeitos que assume o Consórcio Intermunicipal representa a terceira tentativa de o organismo lancetar o tumor do descaso institucional integracionista. O primeiro bloco, do qual fizeram parte quatro dos atuais sete ocupantes dos Paços, casos de Celso Daniel, Luiz Tortorello, Maurício Soares e Cido Franco, até que ensaiou trabalhos, embora os temas fossem restritos a algumas áreas. O segundo bloco, que retirou o time de campo agora, praticamente nada fez, exceto através do pandeiro solitário de Valdírio Prisco, cujo ritmo não satisfez a platéia porque único e monocórdico. É provável que a experiência anterior leve esse quarteto a consolidar o envolvimento dos outros três prefeitos. Maria Inês e Oswaldo Dias naturalmente serão catequizados por Celso Daniel, seguindo ritual corporativista (sem preconceito) do Partido dos Trabalhadores. Gilson Menezes tem se mostrado interessado no assunto.

A maior proximidade entre os sete prefeitos, ação inerente de um Consórcio ativo, poderá amenizar a perspectiva de deflagração de guerra fiscal interna na região. É até recomendável que o Custo ABC sofra duros reveses, até porque está provado que menores impostos significam maiores níveis de arrecadação, mas não é sensato provocar rupturas no relacionamento dos integrantes do Consórcio e desequilíbrios nos cofres públicos com ações isoladas, como as que insinuaram Tortorello e Gilson Menezes. Além disso, a visão puramente fiscalista como estímulo à engorda da arrecadação, pressuposto da queda de alíquotas municipais, é recomendação típica de quem prefere enxergar o quarto pelo buraco da fechadura, em vez de abrir a porta. A não ser que se trate de voyeurismo econômico, não se admite que uma série de medidas, entre as quais a elaboração de densa pauta destinada a melhorar a infra-estrutura viária regional e a aquecer o inter-relacionamento mais consistente dos agentes econômicos internos, deixe de constar da agenda dos novos governantes.

O breve histórico do Consórcio Intermunicipal não confere aos novos membros a confiança de quem se debate contra o municipalismo bairrista que forjou a tradição do Grande ABC. As barreiras culturais ainda resistem. Os limites territoriais que deveriam servir apenas de referências das cartas geográficas ainda funcionam como trincheiras do individualismo. Grande ABC continua a ser uma expressão ousada, prospectiva, sonhadora. É verdade que houve avanços nos últimos tempos, por força de movimentos como o do Fórum da Cidadania, mas ainda se está distante do necessário. Os novos prefeitos não podem perder essa perspectiva. Por mais que façam em seus Municípios, sempre será pouco diante das demandas metropolitanas, que são sinérgicas, contaminadoras, interdependentes.

Entenda por que o governo do Estado arrecada cada vez mais

6/08/07

Edição Especial Histórica Janeiro de 1997

DANIEL LIMA 

O governo do Estado de São Paulo tem comemorado o aumento da arrecadação de impostos, especialmente de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Segundo Clóvis Panzarini, coordenador do sistema tributário paulista, 1996 deverá contabilizar crescimento de 8% na arrecadação, já descontada a inflação, ou quase 40% acima da evolução de 5% prevista para todo o Grande ABC, anunciada com cândida inocência pela Secretaria de Planejamento de Santo André. Os apressados de sempre, e isso os há na mídia paulista em profusão, insistem em confundir arrecadação fiscal com crescimento econômico, quando se sabe que o Plano Real, a despeito da estabilidade monetária, já preocupa renomados especialistas internacionais pelo esgotamento da capacidade de evolução do PIB (Produto Interno Bruto) em níveis que possam ser interpretados como indicativos de desenvolvimento econômico. À parte os efeitos diretos da melhoria de processos de arrecadação de impostos, incluindo-se a contratação de fiscais, investimentos tecnológicos e seletividade geoeconômica que prioriza o Grande ABC pelo forte adensamento de empresas, o que também tem contribuído para o avanço dos números que as autoridades estaduais tanto propagam é a realidade macroeconômica que estimula a terceirização. Escrevemos outro dia de passagem sobre esse assunto e não custa nada certo detalhamento, até porque se trata de abordagem absolutamente inédita.

O arco estatal em suas várias formas, Município, Estado e União, só tem a ganhar numa primeira fase com a desverticalização das empresas. O contingente de trabalhadores que conseguiu substituir o emprego formal pela criação de micro ou pequena empresa prestadora de serviços para atender o antigo patrão ou nichos de mercado perdeu a tranquilidade do salário garantido todo final de mês e ganhou o desafio de empreender. Entre eles há vencedores e vencidos. Não se contam os desempregados que se meteram na informalidade. A terceirização, implantada em larga escala e que se espalha por atividades não necessariamente clássicas como segurança, transporte, limpeza e alimentação, favorece quem a introduz, mas não beneficia o ex-empregado que consegue virar patrão. Ganha a santíssima trindade estatal pela simples razão de que as relações comerciais formais se multiplicam e geram impostos, recolhidos pelos terceirizados.

A terceirização que transforma ex-empregado em patrão contribuinte ou que simplesmente substitui parte dos funcionários por novos fornecedores de serviços e produtos reduz substantivamente a massa de salários e de consequentes encargos sociais com o corte sistemático de cabeças, enquanto infla os indicadores de impostos municipais, estaduais e federais. Todo o cipoal de recolhimentos obrigatórios que cada mão-de-obra gera para o sistema de seguridade social e que, afirmam especialistas, ultrapassa a 100% dos salários em forma de FGTS, 13º, aviso prévio, férias e outras conquistas trabalhistas, acaba substituído pelo ISS, IRPJ, ICMS e IPI. Sem contar a precarização da qualidade de vida também pela eliminação de benefícios sociais conveniados em acordos coletivos, casos de seguro-saúde, vale-refeição, cesta básica e outros apetrechos que os sindicatos arrancaram a fórceps das empresas durante o período de autarquia econômica e de inflação despudorada. Com a terceirização, destroem-se salvaguardas sociais e fortalecem-se barricadas tributárias. As empresas, evidentemente, não podem ser responsabilizadas pela adoção da alternativa da terceirização, fórmula encontrada para reduzir custos, apurar o foco do negócio e enfrentar a globalização sem que o ultimato da desativação prevaleça.

O que se lamenta é a frequência com que a turma do gargarejo aplaude e dá destaque aos anúncios dos resultados da arrecadação tributária do Estado, quando se sabe que o custo desse desequilíbrio é o aprofundamento das desigualdades sociais. A sinfonia macabra que tem as notas do crescimento da arrecadação tributária e a letra da redução do nível de qualidade de vida ainda não foi devidamente entendida pela platéia de contribuintes e de (de)formadores de opinião. A reverência histórica ao regime fiscalista prevalece. Com o acovardamento dos empresários, a omissão dos sindicatos de trabalhadores e a irreverência do Estado em suas várias esferas. Além, é claro, do quase completo alheamento da mídia.

Mão-de-obra tecnológica exige cruzada regional

30/07/07

Edição Especial Histórica
dezembro de 1996

Mão-de-obra
tecnológica exige
cruzada regional

DANIEL LIMA

O futuro do Grande ABC está em jogo. Os próximos quatro anos, que se iniciam em janeiro com novos administradores públicos, vão definir o resultado de uma disputa que pode significar a diferença entre o sucesso e o fracasso. Para isso, terá peso decisivo a educação, voltada estrategicamente para a profissionalização da mão-de-obra, tendo em vista uma indústria cada vez mais atualizada tecnologicamente e um setor terciário, comércio e serviços, também agregador de novas tecnologias. Quem faz a projeção é a pesquisadora Maria do Carmo Romeiro, a partir de estratégico cargo de coordenadora do Inpes, braço de estudos do Instituto Municipal de Ensino Superior de São Caetano - IMES. Depois de analisar a fundo os últimos resultados da semestral Pesquisa Socioeconômica do ABC, desenvolvida em setembro último, correlacionando-os com a série histórica desde os primeiros resultados registrados em 1984, Maria do Carmo chegou à conclusão de que as fundas transformações pelas quais passou a ocupação da mão-de-obra residente em Santo André, São Bernardo e São Caetano estão a exigir providências não só do Poder Público mas também de lideranças sociais e econômicas.

Entre a primeira pesquisa socioeconômica sobre a ocupação da mão-de-obra residente nas três principais cidades da região, em 1984, e a mais recente, do segundo semestre deste ano, é contundente a mudança da cara do emprego. De participação relativa de 52,4%, o conglomerado industrial caiu para 30,6%. Isso representa queda relativa de 71%. Esses empregos deslocaram-se para o setor terciário. O comércio saltou de 11,6% para 17,2%, enquanto os serviços empinaram de 36% para 52,2%. O terciário ocupa, pois, 69,4% da mão-de-obra pesquisada. Cautelosa, Maria do Carmo só não arrisca dizer que concorda com estudos de LivreMercado que registram esvaziamento econômico do Grande ABC. “Os indicadores de que dispomos não nos asseguram dizer sim ou não sobre a evasão industrial. Os dados da Eletropaulo sinalizam para número maior de empresas, mas como não identificam o porte de cada uma e se sabe que a partir de 1990 acelerou-se o processo de terceirização, seria complicado garantir qualquer coisa. Os cadastros das Prefeituras também não estão atualizados para permitir maior incursão nesse tema” — afirma a professora do IMES.

Certo mesmo é que o perfil da mão-de-obra ocupada mudou nos três municípios mais tradicionais do Grande ABC. Maria do Carmo acredita que o forte vácuo existente na década passada no setor terciário e hoje bem menos distante do limite de ocupação minimizou os efeitos negativos da extinção de uma parcela do emprego industrial. A pesquisadora interpreta os números históricos e os projeta para os próximos 10 anos com natural cuidado. Mas não teme afirmar que, em vez do radicalismo das transformações, a mão-de-obra ocupada no ABC viverá período de gradual reacomodação. A indústria não deverá ter, mesmo com novos rebaixamentos ditados pelos investimentos tecnológicos e modernização de gestão, menos que 25% dos trabalhadores. Os demais 75% estarão distribuídos entre comércio e serviços, os quais agregarão alta tecnologia, tendo informática e telecomunicações como âncoras.

É aí que entra o preparo educacional dos trabalhadores da região. Maria do Carmo fala da necessidade de entrosamento regional para planejar os passos que o Grande ABC dará na direção do emprego tecnológico. “É importante que o Consórcio Intermunicipal, formado pelos sete prefeitos, comece a partir de janeiro a efetivar políticas voltadas à preparação de mão-de-obra especializada. Essa é tarefa, aliás, que deve ter a participação dos mais diferentes agentes, casos do Fórum da Cidadania, dos sindicatos, das empresas. Os próximos anos vão decidir o que será da distribuição da mão-de-obra da região. Para evitar novos desequilíbrios, que acrescentariam disparidades de renda, o sistema educacional, integrado às novas tendências de ocupação da mão-de-obra regional, deve ser acionado com urgência” — afirma.

O setor terciário tem condições de absorver mão-de-obra egressa da indústria também fora de áreas mais recentemente descobertas, casos dos shoppings, dos hipermercados, das franquias. Maria do Carmo acredita que serviços especializados de âmbito social, educacional, lazer, pesquisa e desenvolvimento podem receber muitos trabalhadores em novas frentes de atendimento a demandas latentes. Ela lembra que o fluxo de evasão de usuários e consumidores de serviços e produtos rumo à vizinha Capital perdeu força à medida em que o Grande ABC recepcionou novos investimentos nos dois setores. Isso esparrama benefícios, porque complementa relações comerciais. Investimentos em recursos humanos antes prevalecentes nas indústrias já se manifestam no setor terciário e tendem a se avolumar. Mas Maria do Carmo ressalta que, para não se aprofundarem as disparidades sociais, com a elitização da mão-de-obra ocupada, deve entrar em campo aparato educacional voltado para o novo mercado de trabalho.

Se não mete a mão na cumbuca do esvaziamento econômico, posição natural de quem diagnostica apenas com o suporte científico dos números, a professora também não arrisca dizer que melhorou a qualidade de vida no ABC entre o primeiro e o mais recente trabalho do IMES. Diz, sim, que o rendimento médio do trabalhador ocupado é melhor hoje do que em 1984, até porque os anos 1980 foram uma sequência de quedas do PIB (Produto Interno Bruto) e os anos 1990 privilegiaram cortes de mão-de-obra combinados com ganhos reais dos que se mantiveram empregados. Mas melhor remuneração pelo trabalho, apesar das transformações macroeconômicas ditadas pela abertura comercial seguida de estabilidade monetária gerada pelo Plano Real, não significa automática melhoria de qualidade de vida.

Maria do Carmo considera complexos demais os indicadores que poderiam ser utilizados para correlacionar a qualidade de vida dos dois períodos. Trata-se de algo que necessitaria de pesquisa específica, que considerasse variáveis como segurança, habitação, saúde, transporte, menores de rua, usuários de drogas, entre outros: “Acredito que tivemos nichos de melhora e nichos de piora nesse período, mas no conjunto fica difícil diagnosticar sem forte base de estudos” — diz.

A Pesquisa Socioeconômica do ABC divulgada em novembro pelo IMES detectou que a taxa de desemprego entre moradores de Santo André, São Bernardo e São Caetano, em agosto deste ano, foi equivalente a 10,8% da PEA (População Economicamente Ativa) com idade mínima de 18 anos, apresentando significativa retração em relação ao índice observado em fevereiro deste ano, que chegou a 14,6%. Maria do Carmo avalia os números dentro da lógica de que o segundo semestre sempre aponta evolução da atividade econômica. Ainda mais em ano eleitoral. A professora ressalta, entretanto, que o índice de desemprego é superior ao de agosto de 1994, logo após a implantação do Plano Real, que atingiu 9,3%. Nas pesquisas seguintes, sempre realizadas nos meses de fevereiro e agosto, foi ganhando maior altitude o quadro de desempregados, com leve rebaixamento em fevereiro e forte queda agora em agosto.

A metodologia aplicada pelo IMES é semelhante à utilizada pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). Difere apenas quanto à faixa etária abordada, a partir de 18 anos, contra 14 do Dieese. A metodologia do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que considera desempregado quem está há uma semana à procura de emprego, é mais amena na quantificação do exército de sem-salário, já que a do IMES leva em conta os últimos três meses.

A última pesquisa do IMES detectou também que 33,3% dos entrevistados que estavam desempregados são formados por mão-de-obra especializada, contra 18,8% de fevereiro. Também aumentou, no conjunto de mão-de-obra ocupada em agosto último, comparativamente a fevereiro deste ano, a parcela de autônomos, que passou de 24,2% para 27,6%. Outro aumento atingiu a parcela de empregados em empresas sem carteira assinada. Do total de empregados de empresas, 13% declararam não apresentar registro em carteira, contra 9,3% em fevereiro. Esses dois indicativos de precarização do trabalho contribuíram para a queda do rendimento médio apurado em agosto, equivalente a R$ 1.155,42, contra R$ 1.309,33 em fevereiro último, o que resulta em redução de 6,1%. A comparação com agosto do ano passado seria ainda mais desvantajosa, porque o rendimento médio naquele mês chegou a R$ 1.320,83.

Perdas individuais não significam, segundo a pesquisa do IMES, sangria do agregado familiar. O rendimento médio das famílias residentes no ABC cresceu 12% no período fevereiro-agosto/1996, passando de R$ 1.675,15 para R$ 1.880,80. Maria do Carmo explica que a diferença é estimulada pela redução da taxa de desemprego constatada no período, de 14,6% para 10,8%. O número médio de pessoas que contribuem para a renda familiar passou de 1,91 para 2,01. Isto é: em cada 100 famílias, cinco acrescentaram um novo membro no mercado de trabalho.

Extrapolar os números e as conclusões da pesquisa do IMES para o conjunto dos sete municípios do Grande ABC não é aconselhável, adverte a própria pesquisadora. Ela afirma que, dadas as características dos municípios não pesquisados, situados na periferia da região, é possível projetar patamares inferiores aos recolhidos em Santo André, São Bernardo e São Caetano num universo de 658 entrevistados e com técnica de amostragem probabilística por conglomerados em estágios sucessivos — quarteirão, domicílio, entrevistado.

A discreta revolução dos shoppings

16/07/07

Edição Especial Histórica
Reportagem de Capa de LivreMercado: dezembro de 1996

A discreta revolução
dos shoppings

DANIEL LIMA

O Grande ABC vive outra revolução, além da impiedosa necessidade de atualizar seu importante parque industrial. O comércio convencional está sob a artilharia de antigos, recentes e novos empreendimentos no setor de shopping center, estrelas que chegaram atrasadas, devagar, mas agora ensaiam blitz portentosa, com investimentos de expansão e de novas plantas. Os representantes dos shoppings tentam minimizar o quadro de competitividade que deverá gerar muitas vítimas nos centros comerciais centrais e na periferia. Também fazem manobras para disfarçar outro choque latente e que envolve shoppings já instalados e alguns dos anunciados. Só existe uma certeza entre os contendores: os consumidores já estão ganhando com esse jogo aberto e franco, porque, além da elevação do grau de competição que se instalou por força da concorrência, os preços ganharam maior visibilidade desde o Plano Real e aspectos como qualidade dos produtos e do atendimento já não são mais supérfluos.

Apesar do desconforto que a guerra santa pelos consumidores provoca, com tendência internacional de perdas para o comércio de rua, tradicionalmente menos atualizado e preparado para o jogo de sedução da clientela, a transformação surda e muda que se vive no Grande ABC é menos desgastante do que a que envolve a indústria. Sobretudo a de autopeças, salsicha no meio de duas bandas de pão representadas pelas pressões de preços das montadoras de veículos protegidas da concorrência internacional por alíquotas elevadíssimas e fartamente beneficiadas pelas negociações junto a fornecedores estrangeiros de matérias-primas, autopeças e insumos internacionais, que encontram os portos praticamente escancarados e não têm de carregar nos ombros o chamado Custo Brasil adicionado do Custo ABC.

O comércio da região vai conhecendo o boom dos shopping centers mas isso não significa, de imediato, que o quadro seja de desespero aos comerciantes de rua. É verdade que o jogo vai ficando cada vez mais bruto, que o peso de tributos é mais acentuado num regime de estabilidade monetária e de aperfeiçoamento da máquina arrecadatória, mas não há como negar que a canibalização ainda não chegou a extremos. Primeiro porque o Plano Real beneficiou o bolso dos mais pobres, que foram às compras. Segundo porque, ao contrário da indústria que vê receitas se exaurirem com a competição externa, as lojas de rua ganham com a redução do êxodo dos consumidores rumo à vizinha Capital e que, atraídos pelos shoppings locais, acabam sempre, em alguma escala, frequentando também os centros de compras convencionais.

É na captura dos dissidentes, dos clientes endinheirados enfeitiçados pela Capital mais experiente nas fórmulas de atração dos shoppings, que apostam Laura Ranaldi e Emilia Rita Conde, executivas do Shopping Metrópole, antigo Center Shop São Bernardo. Elas não dispõem de dados estatísticos sobre o Grande ABC para arriscar o grau de eventual saturação de shoppings na região diante de novos empreendimentos, mas apostam na conquista de bolsos que antes não resistiam aos endereços da Capital. O Metrópole tem 98 lojas e em abril inaugura mais 102, além de cinemas e outros sedutores atrativos. Sua performance é emblemática do reposicionamento dos shoppings no Grande ABC. O Metrópole não mudou apenas de nome. Mudou tudo. Trocou a direção, reorganizou completamente a administração, fez do marketing coisa séria, reformatou o layout, investiu em iluminação, vitrines, piso, treinamento de quadros de vendedores e gerentes e bate recorde de público. É frequentado por 600 mil pessoas por mês e seus espaços de vendas são disputadíssimos.

Mais clientes
O Shopping ABC, antigo Shopping Mappin, também está de olho nos consumidores da região que ainda não perderam a mania de gastar seu rico dinheirinho em São Paulo. Luiz Fernando de Castro, superintendente desse empreendimento que reúne 130 lojas e que vai inaugurar mais 200 no primeiro trimestre do ano que vem, sintetiza o perfil que será alcançado com o aumento da área de vendas de 18 mil para 42 mil metros quadrados: “Ganharemos definitivamente o formato de shopping regional, parecido com o Shopping Morumbi. Isso vai significar que conquistaremos muitos clientes das classes A e B da região que ainda entendem que não há oferta de produtos qualificados por aqui. Teremos um mix ampliado, com variadíssima área de fast-food, além da ancoragem do Mappin que dispensa apresentações”.

O Shopping Santo André, a menos de dois quilômetros do Shopping ABC, junto ao Calçadão da Oliveira Lima, o mais lustroso endereço de comércio tradicional do Grande ABC, também está investindo em novas lojas. Em abril, 32 unidades se somarão às atuais 106. O gerente de marketing Ricardo Fioravanti afirma que 12 mil pessoas passam diariamente pelos corredores do estabelecimento e que esse volume aumentará ainda mais quando quem trafegar pela Oliveira Lima tiver acesso direto às lojas, como está previsto nos investimentos de expansão. Ele não entra no coro otimista de que há espaço para novos shoppings na região, como os anunciados ABC Plaza Shopping e o Grand Shopping em Santo André. “Tenho a impressão de que esses investimentos estão sendo feitos com base em números defasados sobre a economia da região, porque a situação não está para peixe” — explica.

Ricardo Fioravanti entende que a disponibilidade comercial da região está de acordo com o grupo de shopping centers instalados e que mais concorrentes significarão a divisão do mesmo bolo. “Muita gente se esquece que o Grande ABC vive o problema da evasão industrial e do desemprego. Os consumidores estão assustados com a possibilidade de perder emprego e retêm suas economias. Temos vivido de sazonalidades de vendas, restritas a períodos de cinco dias após o vale e o pagamento dos salários” — afirma. Mas Ricardo Fioravanti não teme pelo futuro do Shopping Santo André. Com expansão e maior sinergia com a Oliveira Lima, ele afirma que tanto o empreendimento como a área comercial da região central serão beneficiados. Por isso, torce para que não seja frustrado o grupo de lojistas do comércio convencional que está se mobilizando para dar à Oliveira Lima e redondeza características de shopping a céu aberto.

Mauá e Ribeirão
O Green Plaza Shopping, em Mauá, com 60 lojas, está ajudando a mudar o perfil do consumidor local que antes só frequentava o comércio tradicional e se deslocava em grande contingente para as vizinhas Santo André e São Bernardo. Lourival Cardoso, diretor da Associação dos Lojistas, afirma que o empreendimento tem mantido boa média de fluxo consumista, mas a interação com o comércio tradicional do Centro não existe, até porque há disparidade de qualificação. Ribeirão Pires é menor que Mauá, tem menos indústria, menos comércio, menos consumidores, mas reúne dois shoppings, o Duaik e o Garden, com 41 e 70 lojas, cujas repercussões junto aos consumidores oferecem semelhança à alcançada pelo Green em Mauá, com a vantagem suplementar de teoricamente ter menor impacto na debandada rumo a shoppings de outros municípios, por causa da distância que separa a cidade do núcleo do Grande ABC.

Diadema tem poderio econômico superior a Mauá e Ribeirão Pires juntas, mas está fora do mapa de shopping centers no Grande ABC. Filipe dos Anjos Marques, presidente da Associação Comercial e Industrial, torce para que o Shopping da Praça da Moça, bem no coração comercial, seja mesmo inaugurado no final do ano que vem com 150 lojas. Filipe não tem as mesmas preocupações sobre exaustão de shoppings manifestadas por Ricardo Fioravanti, do Shopping Santo André. Afinal, com 400 mil habitantes e entre os 15 municípios mais bem colocados no ranking de arrecadação de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) do Estado, Diadema tem tudo, segundo afirma, para usufruir das vantagens de um centro de compras planejado.

“Acho que um shopping vai reduzir a fuga de consumidores do Município. Temos informações estatísticas de que o Shopping Plaza Sul, na Capital, recebe de Diadema 30% de seu público consumidor. E não é para menos, porque basta pegar a Imigrantes para se estar lá. Sem contar que também os shoppings da região contam com nossos consumidores” — afirma.

Teste importante
O presidente da Acid diz também que o shopping que está em construção vai trazer modernidade ao comércio tradicional do Centro de Diadema, pois haverá referencial importante com novos investimentos em fachadas, vitrines, layouts, administração de recursos humanos, entre outros. O dirigente, que tem loja de confecções no centro comercial e não esconde vontade de expandir-se em direção ao shopping, diz que o conceito de centro de compras em Diadema passará por teste importante, porque o consumidor mais modesto tende a inibir-se diante da nova vitrine comercial. Detentora de perfil socioeconômico homogeneamente periférico, com uma classe média tão reduzida quanto envergonhada de consumir nos acanhados limites do Município, optando por São Bernardo, Santo André e São Paulo, Diadema passou por fundas cirurgias sociais durante três gestões do Partido dos Trabalhadores, mas ainda continua território onde a violência faz morada. Tanto que está em segundo lugar no ranking de criminalidade da Grande São Paulo, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado, atrás apenas de Embu.

O presidente da Associação Comercial e Industrial de Diadema entende que os aspectos positivos amealhados por Diadema mereciam melhor tratamento das grandes grifes. Lembra que as franquias de fast-food ainda não investiram no Município. Chegam até as proximidades, mas param por aí. Filipe dos Anjos Marques não é opositor renitente da administração do PT, reconhece seus méritos, mas entende que o prefeito José de Filippi Júnior poderia ter feito melhor governo no aspecto econômico do Município se tivesse investido na urbanização e valorização do centro comercial.

É o que Flávio Rodrigues de Souza espera do novo prefeito de São Caetano, Luiz Tortorello. O centro comercial de São Caetano tem a concorrência, entre aspas, do Shopping São Caetano, com 192 lojas e o único instalado no Município. O shopping continua a provocar espasmos intermitentes de modernização do comércio tradicional que Filipe Marques projeta para Diadema, mas isso é pouco, segundo Flávio Rodrigues. “O Poder Público precisa participar efetivamente dos investimentos para dotar o Centro de São Caetano de atratividades para reduzir a debandada de consumidores em direção a São Paulo, que continua existindo” — afirma o também presidente da Associação Comercial e Industrial, Aciscs, indócil com o vazamento de receitas para a vizinha Capital.

Profissionalismo
O dirigente de classe e comerciante só não estimula ilusões. Ele afirma que cada vez mais empreender no setor comercial virou assunto para profissionais. Os shoppings e também as franquias, instaladas no centro comercial tradicional, trouxeram novos métodos de gerenciamento que não permitem mais improvisações. “Acabou-se o tempo em que o marido tinha dinheiro sobrando e botava no comércio para a mulher dele ter o que fazer. Agora, quem não tiver muito preparo, mas preparo de verdade, que saiba muito mais que a diferença entre nota fiscal e duplicata, como costumam dizer, vai acabar dançando” — recomenda Flávio Rodrigues.

Quebrar a corrente consumista em direção a São Paulo é preocupação generalizada dos empreendedores e seus representantes. Até porque se desconfia ou se tem certeza de que o bolo do faturamento estará sendo dividido com a chegada de novos shoppings. No Best Shopping, em São Bernardo, que tem 130 lojas e um passado de dificuldades, Edgar Rodrigues, gerente de marketing recém-contratado, não tem dúvidas de que a saída contra a crise que se instalou no empreendimento é investir em grifes, em área de fast-food capaz de provocar grande fluxo de frequentadores e, sobretudo, acabar com o que chama de aventureiros no mix de produtos, isto é, investidores travestidos de empreendedores. Com grifes, acredita Edgar, a perda de clientes para a Capital será estancada em grande parte. O Best é um dos cinco shoppings de São Bernardo e está em posição geográfica aparentemente privilegiada, ao lado da Via Anchieta. Aparentemente porque, da mesma forma que o consumidor alcança com facilidade suas dependências, está a meio caminho da Capital. O Best está próximo também do Golden Shopping, com 174 lojas e uma série de obras a inaugurar no próximo ano, entre as quais salas de cinema. Os outros dois shoppings são menores, o Shoppinho do Coração, em plena Marechal Deodoro, a principal passarela de consumo convencional de São Bernardo, com 70 lojas e como o Best sempre às turras com área de estacionamento, e o Shopping Rudge Ramos, com 18 lojas.

Perdas econômicas
Preocupa empreendedores o esvaziamento econômico do Grande ABC, realidade que não pode ser traduzida como estado de liquidação dos sete Municípios, mas boa oportunidade para os homens públicos e a comunidade como um todo mostrarem que têm capacidade de liderar reação. Está apreensivo mesmo quem não interpreta a vinda de novos shoppings como sobrecarga de oferta de produtos para contingente inalterado de clientes. Caso de Paulo Maurício Del Rey, presidente da Associação dos Lojistas do Golden Shopping e diretor da Micro Spend, loja especializada em produtos e periféricos de informática. Ele descarta a saturação do mercado e está feliz da vida porque seu segmento vai de vento em popa. Mas reconhece que boa parte de sua clientela, cujo cadastro contabiliza 4,5 mil pessoas, está preocupadíssima com os rescaldos econômicos da globalização. “Tenho verificado que muitas pessoas compram computador para que a família inteira, mulher e filhos, possam ir se preparando para o mercado de trabalho, diante da necessidade de disputar espaços num mundo cada vez mais competitivo”– analisa.

Angelo Rosa, diretor da Cinelândia, empresa especializada em artigos de couro, com duas lojas em Santos e duas em Santo André, dividindo espaços em centros comerciais de rua e em shoppings, não pensa em ampliar a rede senão em direção aos shoppings. Reclama dos anúncios de novos empreendimentos de centros planejados na região, lamenta as últimas quedas no ritmo de faturamento e constata que o perfil de vendas alterou-se nos últimos 12 meses, como reflexo do sobrepeso do Plano Real na classe média: “Temos registrado queda significativa de vendas de artigos mais caros. O preço médio de produto vendido caiu de R$ 34 para R$ 23 nos últimos 12 meses. Os artigos em couro perderam participação nas vendas de 80% para 60%, enquanto os sintéticos saltaram de 20% para 40%”– dá exemplos o comerciante.

No setor de perfumaria, o quadro não é diferente, segundo Mariene Figueiredo, franqueada da Água de Cheiro com uma loja na Galeria Atlântica, na rua Campos Salles, e outra no Shopping Santo André. As duas lojas são iguais, seguindo padrão de franquia, e têm leve diferenciação de consumidores. Mariene afirma que a classe média perdeu espaço para setores mais populares, os que mais ganharam com a estabilidade monetária. É verdade que a loja do shopping tem público mais jovem, mas o estrato social é parecido. O mesmo preconceito de frequentar shopping mencionado por Filipe dos Anjos Marques, referindo-se aos consumidores de Diadema, Mariene verifica em Santo André. Consumidores mais humildes se acanham com o glamour dos centros planejados de compras.

Mariene Figueiredo não tem dúvidas de que o Grande ABC já foi mais rico. Ela detecta essa realidade no dia-a-dia de seu negócio. Garante que tem resistido e crescido porque entrega-se de corpo e alma ao empreendimento e faz da organização palavra de ordem. Tem 4,5 mil clientes catalogados, para os quais dedica atenção especial , sabedora de que é mais fácil manter do que conquistar um novo cliente.

Marketing institucional
Maria do Carmo Romeiro, coordenadora do Instituto de Pesquisas do IMES, Instituto Municipal de Ensino Superior de São Caetano, observa de posto privilegiado os investimentos em shopping centers no Grande ABC. É verdade que ainda não há pesquisas detalhadas sobre a realidade socioeconômica regional, mas os sensores do IMES e sua experiência indicam que a competição pelos consumidores do Grande ABC precisa de arte e engenho. Por isso sugere que a fatia de consumidores locais que ainda se desloca até a Capital e até mesmo parte dos moradores de bairros limítrofes de São Paulo com os municípios da região poderiam ser catalogados como clientes se uma campanha de marketing institucional juntando todos os centros de compras fosse desenvolvida. “Está na hora de virar esse jogo”– afirma.

Cláudio Rubens Pereira, presidente da Anapemei, Associação Nacional das Pequenas e Médias Empresas Industriais, com sede em Santo André, considera possível ampliar o leque de consumidores. Mas para isso é indispensável que os administradores públicos do Grande ABC invistam no aumento e na maior integração regional do sistema viário, dotando-o de recursos que facilitem a movimentação tanto interna quanto de potenciais vizinhos.

Cláudio Rubens vê com preocupação os novos empreendedores em shoppings no Grande ABC e desconfia até que o Grand Shopping, com 450 lojas projetadas para a Avenida dos Estados, em Santo André, não saiu do papel e tem atrapalhado a vida dos cotistas exatamente porque se deram conta de que havia mais convidados do que petiscos para a festa de crescimento dos centros planejados de compras.

Igualmente inquieto com o destino do Grand Shopping, Wilson Ambrósio da Silva, ex-presidente da Associação Comercial e Industrial de Santo André e atual vice-presidente da Facesp (Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo), sugere aos cotistas a troca do empreendimento por algo que acredita mais rentável, no caso um grande centro de exposições cercado de áreas de fast-food e de lazer. Exatamente um atrativo do qual a região se ressente, a ponto de improvisar o Pavilhão Vera Cruz, em São Bernardo, como centro de eventos.

Alternativas de investimentos no Grande ABC não faltam também para Ricardo Fioravanti, do Shopping Santo André. Ele recomenda aos empreendedores que contenham o ímpeto de construir shopping e invistam em centros temáticos de compras, como de construção, de lazer. “Acho que para isso a região oferece bons resultados”– aposta.

Plaza chegando
Não é exatamente o que pensa o consórcio formado pela Cyrela, In Mont, Intermart/Austin, Datapol e Collaço & Monteiro Arquitetos Associados para a construção do ABC Plaza Shopping, que está sendo erguido em Santo André em terreno de 79 mil metros quadrados na Avenida Industrial. Serão US$ 90 milhões de investimento para 320 lojas, com entrega das obras em duas etapas. A primeira, que prevê instalação de 210 lojas em 19 mil metros quadrados de área bruta locável, deverá estar concluída em abril de 1997. A segunda, dois anos depois. O projeto tem como âncora área de lazer de oito mil metros quadrados, composta de 11 salas de cinema, boliche e espaço exclusivo para diversões e jogos, além de praça de alimentação e 1,7 mil vagas para estacionamento.

Eduardo Coelho de Almeida, diretor comercial da Cyrela, afirma que o empreendimento foi planejado de acordo com a realidade do mercado. “Todos os detalhes foram cuidadosamente elaborados por algumas das melhores empresas do País no ramo de shopping center. Como resultado, certamente teremos um empreendimento dotado das melhores e mais adequadas lojas e serviços”– disse Eduardo Coelho, como que delimitando os espaços para quem quer enfrentar uma competição que certamente fará heróis e vilões econômicos.

Nas peças promocionais para venda de espaços, os empreendedores do ABC Plaza oferecem argumentos nada desprezíveis. O material afirma que em sua área de influência o novo shopping de Santo André encontra moradores da classe média, média alta e alta. Calcula que a população atual nas três áreas de influências seja de cerca de um milhão de pessoas e a renda média familiar de US$ 12 mil por ano, ou três vezes superior à média do mercado brasileiro. O faturamento previsto do ABC Plaza seria da ordem de US$ 150 milhões por ano.

A tendência de multiplicação dos shopping centers é internacional e o Brasil ainda engatinha no setor comparado ao templo consumista dos Estados Unidos, que conta com 41 mil unidades. O Brasil, que descobriu os shoppings há apenas 20 anos, está em quarto lugar no ranking internacional, bem distante dos norte-americanos, pois tem apenas 112 empreendimentos e previsão de alcançar 250 no ano 2000. Além dos Estados Unidos, também o Canadá e o Japão estão à frente do Brasil. Confecções e calçados ocupam metade dos espaços comerciais nos shoppings.