Se o País for dividido, Tom Zé terá dupla cidadania

Se quiserem mesmo dividir o País em dois, deixando o Norte e o Nordeste separados das outras regiões por um muro, Tom Zé vai pedir dupla cidadania. A absurda proposta que vem sendo feita por eleitores frustrados nas redes sociais depois da vitória de Dilma Rousseff para a presidência nem espanta mais esse baiano de Irará que desconstrói cercas desde que nasceu, cresceu e ajudou a dar forma à Tropicália. Quando faz shows no Rio Grande do Sul, por exemplo, diz ele o seguinte aos gaúchos que ainda preservam o sonho de terem uma república independente: “Se quiserem fazer isso, tudo bem. Mas eu entro com meu pedido de dupla nacionalidade no dia seguinte”.

O novo disco de Tom Zé, Vira Lata na Via Láctea, que terá seu repertório apresentado desde esta sexta-feira, 31, a domingo, 2, no Sesc Vila Mariana, não precisa de bandeiras para justificar a existência. Soaria até banal tentar erguê-las, mas não deixa de ser curioso ouvi-lo justamente neste momento de deformidades morais e delírios coletivos pregando a segregação de um país que só é forte porque, como diz Jorge Mautner, soube fazer a amálgama de sons e cores como nenhum outro.

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Um agregacionista por instinto – e não por ideologia, o que o tornaria um chato -, Tom Zé tem nas mãos um disco demolidor mais por aquilo que é o próprio Tom Zé do que pela constelação que o cerca. O vira-lata do nome é ele mesmo, que se coloca humildemente pequeno assim, revirando sacos de ideias em uma Via-Láctea habitada por Milton Nascimento (carioca/mineiro), Caetano Veloso (baiano), Silva (capixaba) e os paulistanos Criolo, Filarmônica de Pasárgada, O Terno, Trupe Chá de Boldo e Kiko Dinucci. Todos falando no sotaque de Irará.

As pontes foram erguidas pelo jornalista Marcus Preto, que assumiu a direção artística e possibilitou costuras que trouxeram convidados especiais. Milton Nascimento canta com Tom Pour Elis, letra feita pelo baiano sobre texto escrito por Fernando Faro sobre Elis Regina. “Quando o Marcus ouviu, ele achou a cara do Milton e levou para ele cantar”, diz Tom. É um raro momento em que ele, em suas próprias palavras, “deixa de ser cognitivo para se tornar contemplativo”.

Geração Y, uma das forças da natureza mais arrebatadora de Tom, deixa que o jovem narrador fale de sua angústia em primeira pessoa. A questão se coloca em um futuro bem próximo, quando a turma dos smartphones for chamada a liderar as nações. É aí que a velha política pode se encontrar com a nova e, ao final, provar que todos, com ou sem páginas no Facebook, são amaldiçoadamente iguais: “Daqui a alguns anos / vamos ter de governar, ah, ah!… / Oh, e os nossos ideais, ai, quem diria / no mesmo camburão da burguesia / Uma renca de parentes atender / nos ritos e delitos do poder / Puta, que tragédia! / desaba sobre nós / logo depois que a ilusão tem voz”. Cenas reportadas jornalisticamente por um homem de 76 anos que se recusa a envelhecer ou deixar-se domesticar. Um brasileiro indivisível chamado Tom Zé. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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