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Falta de médicos prejudica repasse de verba federal


sábado, 21 de abril de 2012 23:21 [Nenhum Comentário]
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Aline Bosio e Tiago Oliveira
Delcides Zucon, clínico geral que atua no SUS há 27 anos, acredita que a falta de interesse dos novos médicos na clínica geral também se deve ao fator financeiro

O desinteresse dos médicos em atuar no (SUS) Sistema Único de Saúde já levou Mauá e Diadema a perderem repasses do governo federal. Os dois municípios não conseguiram repor os profissionais que deixaram as equipes do Programa Saúde da Família dentro do prazo estipulado de 60 dias e, por isso, tiveram parte da verba cancelada até que fossem substituídos. A cada equipe incompleta, cerca de R$ 6,7 mil deixam de ser repassados para as administrações públicas.

Desde 2009 Mauá realizou oito processos para seleção de médicos, mas o número de profissionais que se apresentaram nos concursos sempre foi inferior à oferta de vagas disponíveis. Segundo a Prefeitura, a maior carência está na pediatria e clínica geral. O município contava em 2009 com 316 médicos na rede de atendimento do SUS e hoje são 536 profissionais para o atendimento da população. Entre 2009 e 2010 (data do último levantamento do IBGE) a população da cidade ficou estável, com pouco mais de 417 mil habitantes.

Segundo a Secretaria de Saúde de Diadema, atualmente há falta de pediatra para o Pronto Socorro Central e para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Paineiras, clínico geral para o Pronto Socorro Central, UPA Paineiras e UBSs (Unidade Básica de Saúde), além de generalistas de Saúde da Família para as UBSs.

Para resolver a falta de pediatras, São Bernardo fez estudo de demanda nas unidades de pronto-atendimento para dimensionar os atendimentos. A partir disso, nas quatro unidades onde ocorriam o menor número de casos infantis, o pediatra foi retirado da escala regular de plantões e deslocado para a composição completa da grade das outras unidades. Enquanto isso, em unidades de pronto-atendimento com menor demanda pediátrica foram contratados médicos socorristas, que passaram por capacitação em pediatria e contam com o apoio de Cinturões de Proteção à Criança, ou seja, dispõem da retaguarda de um pediatra 24 horas como referência.

Ribeirão reclama da concorrência

A escassez de médicos em determinadas especialidades e a concorrência com os salários oferecidos por outros municípios, geralmente mais altos e atraentes, dificultam a contratação. “Abrimos concurso público para a contratação de profissionais, em diferentes especialidades, mas não foi suficiente para suprir a demanda”, explica o diretor técnico da Secretaria de Saúde e Higiene de Ribeirão Pires, Wagner Ciongole.

No total, 116 profissionais se candidataram aos cargos disponíveis em Ribeirão Pires. Cerca de 50 profissionais serão convocados para preencher as vagas disponíveis nas Unidades Básicas de Saúde e no Hospital e Maternidade São Lucas.

Medicina da família

“Dentre as cerca de 36 mil equipes de Saúde da Família no País, há apenas dois mil especialistas em medicina da família e comunidade. Não é costume das escolas médicas brasileiras formar o tipo de profissional. Normalmente são médicos mais velhos que atuam no setor”, esclarece Marco Akerman, vice-diretor da Faculdade de Medicina do ABC. Segundo o dirigente, a instituição já formou nove médicos desta especialidade. “O número não é suficiente, por isso importamos médicos para a região”, conta. O ABC possui, atualmente, 265 equipes da Saúde da Família. 

Salário dificulta contratação no SUS

As condições de trabalho e os salários oferecidos aos médicos que atuam no SUS são considerados os principais fatores que afugentam médicos recém-formados na hora de atuar na saúde pública. No ABC, os salários iniciais variam de R$ 2,5 mil em São Caetano a R$ 12,6 mil em São Bernardo.

Mas a remuneração na rede pública varia de acordo com carga horária e local de trabalho. Em Diadema parte de R$ 4,9 mil para o profissional que trabalha 20 horas semanais em uma UBS (Unidade Básica de Saúde). Em Mauá, o médico recebe a partir de R$ 3,2 mil mais bônus de R$ 200 por 12 horas de trabalho, em Ribeirão Pires R$ 4 mil por 20 horas semanais e em São Caetano R$ 2,5 mil por 24 horas. Em São Bernardo, o médico que trabalha por 20 horas semanais recebe R$ 3,5 mil, enquanto um médico de Saúde da Família recebe R$ 12,6 mil por uma jornada de 40 horas. As demais prefeituras não responderam às solicitações da reportagem.

Irrisório

Delcides Zucon, clínico geral que atua no SUS há 27 anos, acredita que a falta de interesse dos novos médicos na clínica geral também se deve ao fator financeiro. “Esta é a porta de entrada do paciente, mas como não há como pedir a realização de muitos procedimentos específicos, como cirurgia, acaba sendo menos rentável”, comenta. “O que SUS paga para os médicos de uma forma geral é muito pouco”, lamenta.

Zucon também atende em clínica particular e compara os ganhos entre SUS e atendimento particular. “Na minha clínica ganho cerca de 10 vezes mais do que na rede pública. Por isso, os jovens que se formam médicos pensam em ter clínica própria. Normalmente médicos do SUS, principalmente generalistas, são mais velhos”, completa. 

Formação está em descompasso

Segundo o vice-diretor da Faculdade de Medicina do ABC, Marco Akerman, também professor da disciplina de Saúde Coletiva, enquanto o governo e as administrações públicas afirmam faltar profissionais no mercado, entidades que representam a classe médica atribuem o problema é à má distribuição territorial dos profissionais. Mas , Akerman afirma que é possível sentir a falta de profissionais generalistas, pediatras, intensivistas e de urgência e emergência.

“A impressão que temos é que os alunos imaginam que um clínico geral sabe pouco sobre muita coisa e, por isso, se sentem inseguros e optam por especialistas. Isto é um paradoxo, pois as necessidades da população e do mercado de trabalho pedem médicos generalistas”, alerta.

“Há uma crise no modelo de formação adotado pelas faculdades e o modelo de trabalho do SUS. Isso causa falta de profissionais em áreas específicas e não de forma generalizada. Vale ressaltar que a dificuldade de encontrar alguns profissionais, como clínico geral e pediatra não é apenas da rede pública, setor privado passa pela mesma situação”, ressalta Arthur Chioro, secretário de Saúde de São Bernardo e coordenador do GT (Grupo de Trabalho) de Saúde do Consórcio Intermunicipal do ABC. 



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